Título: PARA MINISTRO, GERIR AGRICULTURA É `INSUPORTÁVEL¿
Autor: Eliane Oliveira
Fonte: O Globo, 08/10/2006, Economia, p. 43
Guedes diz que modelo brasileiro de política agrícola está esgotado, com ações reativas do governo em caso de crise
BRASÍLIA. Componente imprescindível na economia brasileira e ponto de honra do Brasil nas negociações internacionais, a agropecuária vive um dilema: é extremamente competitiva em relação a outros mercados, mas não dispõe de mecanismos para se proteger de crises. Essa fragilidade leva o ministro da Agricultura, Luiz Carlos Guedes Pinto, há apenas dois meses no cargo, a dizer que o atual modelo brasileiro de política agrícola está esgotado.
¿ É insuportável administrar agricultura ¿ afirmou o ministro, em entrevista ao GLOBO.
Guedes encomendou um estudo à Secretaria de Política Agrícola. Ainda com os dados preliminares, afirma que, somente em equalização de juros ¿ a taxa para o agricultor é de 8,75%, enquanto a taxa básica Selic é de 14,25% ¿, o Tesouro gastará este ano entre R$4 bilhões e R$5 bilhões.
O valor equivale a mais de quatro vezes o orçamento do Ministério da Agricultura previsto para 2007, de R$950 milhões ¿ montante que não inclui a verba administrada pelo Ministério da Fazenda na área de estoques. Parte desses recursos poderia ser usada para melhorar, por exemplo, o sistema de defesa sanitária no país.
¿ O atual modelo, que tem se repetido nos últimos anos, caracteriza-se por uma atuação reativa do governo. Estamos sempre reagindo às crises ou correndo atrás do prejuízo ¿ afirma Guedes.
Já se vão dois anos de crise no setor. Os fatores são diversos e levaram o governo a prorrogar R$20 bilhões em dívidas dos agricultores. Seca no Sul e no Centro-Oeste, real valorizado e queda dos preços de commodities importantes, como soja, arroz e milho, no mercado externo causaram perda de renda do produtor rural.
Economista critica divergências entre ministérios
Para o ministro, a solução passa por quatro medidas. A primeira é que o governo dê prioridade ao seguro agrícola e ao fundo de catástrofes ¿ cujo projeto está em elaboração e será enviado ao Congresso. A segunda, como conseqüência disso, seria estimular as operações em mercados futuros, que servem de proteção. Em terceiro lugar, é preciso diversificar as fontes de recursos para apoiar o custeio e a comercialização da safra. E, em quarto lugar, devem ser melhorados os contratos entre produtores e processadores.
¿ Não pretendemos interferir nos contratos. Mas é desigual a relação dos produtores com os frigoríficos, dos plantadores com as indústrias de suco de laranja, entre outros exemplos ¿ explica Guedes.
O superintendente técnico da Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Ricardo Cotta, diz que concorda ¿parcialmente¿ com o ministro. Segundo ele, há problemas estruturais que precisam ser resolvidos.
¿ Há uma crise de rentabilidade que faz com que o produtor não consiga fechar suas contas ¿ afirma Cotta.
O economista da CNA cita o alto custo da produção, que inclui o frete, o péssimo estado das estradas e, como resultado, o elevado grau de desperdício na agricultura. Quanto ao seguro agrícola, ele faz uma ressalva:
¿ Os Estados Unidos demoraram 40 anos para implementar seu seguro. Hoje, o produtor se sente desestimulado, porque o sistema atual não cobre suas necessidades.
Marcos Jank, economista do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), faz uma crítica à postura antagônica dos ministérios da Agricultura e do Desenvolvimento Agrário, marcada por divergências em diversas áreas:
¿ Enquanto os ministérios têm posições antagônicas, as questões mais importantes da agricultura não estão sendo controladas por qualquer deles.
Para Sociedade Rural, desafio é modernizar setor
Jank acredita que a receita para melhorar a agropecuária brasileira deve se pautar pelos seguintes pontos: manter o câmbio real em níveis adequados; reduzir a taxa de juros; investir em infra-estrutura e logística; promover uma política comercial agressiva; e assegurar direitos de propriedade e segurança jurídica.
Na opinião do economista, as políticas para a sanidade e a qualidade são críticas, assim como as medidas para aumentar a inserção competitiva do pequeno produtor. Ele também vê deficiências na administração de riscos (seguro rural e hedge no mercado futuro).
Para o presidente da Sociedade Rural Brasileira, João Sampaio, o desafio é modernizar o sistema de crédito, as garantias e os contratos:
¿ Estamos trabalhando com um negócio que foi criado 40 anos atrás. Precisamos de um modelo de agricultura diferente, pois vivemos em um mundo diferente. A agricultura se modernizou no campo, mas o governo tem de fazer sua parte.