Título: CHILE E BRASIL: QUANTIDADE E QUALIDADE NA EDUCAÇÃO
Autor: CLAUDIO MENDONÇA
Fonte: O Globo, 08/10/2006, Opinião, p. 7
OChile está entre os países da América Latina que mais investiram em educação nos últimos 15 anos. Desde 1990, quando o país recuperou a democracia, as autoridades enfrentam o desafio de transformar a educação, meta que mantém até hoje em termos de qualidade e igualdade.
Diferentemente das escolas brasileiras, as chilenas praticamente sanaram os problemas de infra-estrutura. Hoje, entre outros avanços, os investimentos em infra-estrutura permitiram que 100% das escolas tenham laboratório de informática, com aproximadamente 30 alunos por computador, e que 95% delas estejam conectadas à internet.
Além disso, quase todas as crianças estão na escola ¿ 98% no ensino fundamental e 92% no ensino médio. A rede de ensino conta com horário integral para todos os alunos e os professores receberam um aumento de aproximadamente 150% entre 1994 e 2005 (o salário havia caído 30% entre 1982 e 1990).
As diretrizes que têm guiado a Reforma Educativa Chilena são, em linhas gerais, a ampliação do acesso à educação, o aperfeiçoamento das condições de aprendizado, políticas de melhoria da educação e atenção à população em áreas de vulnerabilidade social, melhoramento e ampliação da infra-estrutura, profissionalização do docente, atualização curricular, implantação de um sistema eficaz de avaliação de professores e alunos para a educação básica, formação técnica e educação permanente e uma política de educação de nível superior.
Segundo o Boletim 2006 do Conselho Consultivo do Programa de Promoção da Reforma Educativa na América Latina e Caribe (Preal), a maioria dos governos deu passos importantes nos últimos anos, colocando um número maior de crianças freqüentando as escolas. No entanto, em termos de qualidade, igualdade e eficiência, os níveis permanecem baixos e os avanços são poucos ou inexistentes.
Embora o sistema educacional chileno seja bem diferente do brasileiro, temos muitos problemas em comum. Baixos níveis de aprendizagem, pouca responsabilização e crise no magistério são pontos comuns aos países latino-americanos que privam suas crianças e jovens do conhecimento e das habilidades necessárias para progredir nas sociedades modernas.
Pesquisa divulgada recentemente pelo Centro de Estudos Públicos ¿ fundação privada financiada por empresas ¿ em diversos veículos de comunicação indicou que 74% dos pais entrevistados acreditam que os professores que não apresentam desempenho de acordo com as exigências da escola deveriam ser demitidos e que 91% gostariam de ter informações detalhadas sobre os resultados da prova nacional de avaliação, para saber como e onde se coloca a escola onde seus filhos estudam.
Outro caminho apontado pelo Ministério da Educação para enfrentar o problema é a certificação docente, coordenada nacionalmente pela Pontifícia Universidade Católica chilena (PUC). Trata-se de um intrincado sistema pelo qual o professor se auto-avalia, é avaliado pelo diretor da escola e também por um colega de outra unidade.
Além disso, 16.500 professores já tiveram suas aulas filmadas para avaliação por uma equipe de nada menos que 400 profissionais coordenados pela PUC.
Desses professores, 4% apresentaram rendimento insuficiente e estão na mira do governo para serem demitidos. Isto promete ser mais uma queda-de-braço entre o sindicato e a presidente Michelle Bachelet.
A crise do magistério é o ponto que gera mais discussão do ponto de vista programático. Na maioria dos países latino-americanos alguns professores não são comprometidos com o sucesso da escola e estão desmotivados. Os concursos deveriam ser mais rígidos? A formação do magistério deve ser reformulada? Como motivar os atores da educação? O exemplo chileno provou que aumento salarial é um bom começo, mas isoladamente não altera os indicadores de qualidade da educação.
O grande desafio que autoridades chilenas enfrentam agora é o de conscientizar as famílias das mudanças que ainda se fazem necessárias dentro do sistema educacional. Ainda que governantes e especialistas discutam se o sistema de avaliação deve estar ou não atrelado a bônus salarial, todos parecem concordar que os governos devam avaliar seu sistema educacional.
É importante que as informações das avaliações sejam divulgadas de forma clara para que os pais e responsáveis possam cobrar mais dos governos, das escolas e também dos professores. Esse parece ser o caminho que o Chile, seguindo outros modelos internacionais, está disposto a trilhar.
CLAUDIO MENDONÇA é ex-secretário estadual de Educação do Rio.