Título: TESTE ALARMA O LÍDER RECÉM-ELEITO DA ONU
Autor: helena Celestino
Fonte: O Globo, 10/10/2006, O Mundo, p. 33

Conselho de Segurança aprova sul-coreano Ban Ki-moon, que lamenta obstinação de Pyongyang em afrontar o mundo

NOVA YORK. Sob pressão da crise internacional criada pelo teste nuclear da Coréia do Norte, o Conselho de Segurança levou poucos minutos ontem para indicar por aclamação o ministro das Relações Exteriores da Coréia do Sul, Ban Ki-moon, como o novo secretário-geral da ONU.

¿ Deveria ser um momento de alegria, mas estou com o coração pesado. Apesar dos avisos unânimes da comunidade internacional, a Coréia do Norte fez o teste nuclear ¿ disse Ban, numa entrevista em Seul.

A Coréia do Norte obscureceu a indicação do sucessor de Kofi Annan , que deverá ser eleito formalmente pela Assembléia Geral até o fim desta semana ou no início da próxima. Mas não há incertezas sobre a sua vitória, pois jamais um nome indicado pelo Conselho de Segurança deixou de ser aprovado pelos países-membros da ONU.

Assim que Ban foi indicado, Kofi Annan deu-lhe as boas-vindas e disse que fará tudo para a sucessão ser suave na ONU. O mandato do atual secretário-geral só termina em 31 de dezembro e não existem regras para este período de transição, mas nem bem o nome de Ban foi oficializado, os Estados Unidos já começaram as pressões para fazer avançar a sua agenda.

¿ Com esse voto hoje, os ventos de mudança começaram a soprar na ONU. Gostaríamos que ele desse passos significativos no processo de reforma administrativa ¿ disse o embaixador americano, John Bolton.

A principal pergunta entre os diplomatas é como o novo secretário responderá às fortes pressões do governo de George W. Bush para a ONU apoiar a agressiva política americana na cena internacional.

¿ Ele chega com o apoio americano. Na prática, os EUA encurtaram o mandato de Annan. Mas quando Annan chegou, também se dizia que ele seria dócil com os americanos ¿ diz um experimentado diplomata.

Proposta é fazer grande reforma administrativa

Ban Ki-moon, 61 anos, tem o estilo oposto de Annan, o pop star da diplomacia que nos últimos dez anos denunciou os países que violaram as leis internacionais, ganhou um Prêmio Nobel mas acabou sendo atingido pelos escândalos de corrupção no Programa Petróleo por Comida e por denúncias de abuso sexual praticadas por soldados das missões de paz. Discreto, Ban já disse que ele tem um ¿outro tipo de carisma¿ e provou que era verdade. No início era visto como um improvável sucessor para Annan e achava-se que um novo nome surgiria. Mas ele venceu as quatro votações informais do Conselho e os outros seis candidates se retiraram da eleição. Foi indicado com a proposta de fazer uma grande reforma gerencial na ONU, prioridade dos EUA.

¿ Contribuirei o máximo que puder para a resolução de todas os tipos de problemas, inclusive a questão nuclear na Coréia do Norte , que é uma ameaça à paz ¿ disse Ban em Seul.

O presidente do Conselho, o japonês Kenzo Oshima, e o embaixador americano consideraram que um secretário-geral sul-coreano neste momento é uma vantagem porque pode lidar melhor com a Coréia do Norte. Nem todos concordam: alguns embaixadores lembraram que é a primeira vez que um secretário-geral vem de um país dividido, ocupado, e desenvolvendo um programa nuclear.