Título: Algumas vítimas tinham dedos cruzados em figa
Autor: Jailton de Carvalho
Fonte: O Globo, 11/10/2006, O País, p. 19
Para militares envolvidos nas buscas, gesto de passageiros indicaria consciência da queda do avião instantes antes da morte
PEIXOTO DE AZEVEDO (MT). Com o reforço de macacos hidráulicos capazes de suspender o trem de pouso e as asas do Boeing 737-800 da Gol que caiu no Mato Grosso, os militares retomaram ontem as buscas pelos últimos corpos de vítimas ainda não localizados. Nos dez primeiros dias de busca, a força-tarefa coordenada pela FAB resgatou 143 corpos das 154 vítimas do acidente. Segundo relato dos militares, alguns corpos foram encontrados com o semblante contraído e os dedos cruzados em figa. Isso, explicam, indicaria que tiveram consciência da queda do avião nos instantes que precederam a morte.
A força-tarefa localizou ontem mais três corpos. Agora falta localizar nove vítimas do acidente. Segundo o major do Exército Mário Flávio Brayner, a busca pelos corpos restantes exigirá um esforço redobrado. A operação contará com a ajuda de dois técnicos da Recovery Kit, empresa ligada à Varig.
- Vamos procurar como agulha no palheiro - disse o comandante dos 114 homens do Exército convocados para reforçar as buscas.
Os dois técnicos da Recovery, Ailon Jacobs Dalla Costa e Sergio Augusto Guidougli, chegaram à fazenda Jarinã segunda-feira e fizeram uma inspeção na área dos destroços. Ontem, numa complicada operação, levaram para o local dois macacos hidráulicos, um deles com capacidade para suportar até 90 toneladas, para levantar o trem de pouso e parte das asas do Boeing. O trem de pouso, uma peça de aproximadamente 15 toneladas, esmagou 24 poltronas. Os técnicos acreditam que possa haver corpos embaixo.
Os técnicos tiveram dificuldades para transportar os macacos hidráulicos e os cabos de aço, de helicóptero, da fazenda Jarinã para a área do acidente. Os equipamentos pesam aproximadamente sete toneladas. A fazenda fica a 40km do local dos destroços, onde só é possível o acesso de helicóptero ou a pé, após dois dias de caminhada na mata.
Os soldados da 1ª Infantaria de Selva Aeromóvel estão fazendo varredura também em busca do cilindros de voz, parte da caixa-preta do Boeing que pode esclarecer as causas do acidente. Especializados em manobras na selva amazônica, eles montaram acampamento próximo à clareira aberta no início das buscas pelo Para-sar (sigla em inglês para o serviço de busca e salvamento). Os soldados não têm o mesmo treinamento dos militares do Para-sar, especializados em resgate de alto risco. Mas são mais preparados para se movimentar e sobreviver na selva.