Título: China, o fiel da balança na crise norte-coreana
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 11/10/2006, O Mundo, p. 40
Para analistas, o maior parceiro econômico e político de Pyongyang tem recursos para pressionar volta às negociações
PEQUIM. Quando os norte-coreanos decidiram testar mísseis de curto e longo alcance sobre o Mar do Japão, há alguns meses, muitos analistas asiáticos acreditaram que a Coréia do Norte queria chamar a atenção de Washington e lembrar ao mundo que, se nada fosse feito para melhorar a maneira como o país vinha sendo tratado, as coisas poderiam ficar piores. E ficaram. Especialmente depois dos testes nucleares de anteontem.
Nível de sanções dependerá do consentimento chinês
No entanto, apesar de certo consenso de que o país está focando nos EUA e buscando negociar benefícios bilateralmente, os analistas asiáticos parecem concordar que os interesses da China serão fundamentais no desenrolar desta crise, especialmente o nível de sanções que deverá ser adotado pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas como punição ao teste nuclear. E os membros do conselho sabem disso.
- A Coréia do Norte é o quintal da China, que neste momento de prosperidade econômica, não quer problemas. É por isso que o país não vai apoiar qualquer resolução tomada pelo Conselho de Segurança que represente medidas drásticas. E o país é o mais importante parceiro econômico e político de Pyongyang. A China tem muitos recursos para pressionar os norte-coreanos além das medidas retaliatórias de impacto mundial - diz Peter Beck, analista-chefe da ONG International Crisis Group, o maior especialista em Coréia do Norte da Ásia.
Em 2003, ao cortar discretamente o fornecimento de petróleo para a Coréia do Norte, a China obrigou o país a sentar-se na mesa de negociações conhecida hoje como Conversa dos Seis Países (as duas Coréias, Japão, EUA, Rússia e China) - até os norte-coreanos abandonarem a mesa em novembro após os EUA congelaram ativos financeiros do país no sistema bancário internacional, sob acusações de que o regime de Kim Jong-il financiava o terror.
Foi uma frustração para os antigos aliados chineses, que sempre fizeram questão de manter um poder comunista por perto como forma de reduzir a hegemonia americana na Ásia.
- A China é o país que hoje tem mais condições de, suavemente, pressionar a Coréia do Norte a voltar a negociar, mas também está numa situação delicada. Vinha investindo pesadamente, do ponto de vista diplomático, na negociação entre os seis países como forma de resolver o conflito e havia pedido moderação ao líder norte-coreano, Kim Jong-il. Mas o teste deixou o país numa situação delicada. Os chineses sabem que, se não é interessante politicamente desmoralizar um parceiro comunista no seu quintal e contribuir para o colapso do regime, por outro lado precisam, ainda que nos bastidores, mostrar pressão - afirma Richard Baum, professor de ciências políticas da Universidade da Califórnia e especialista em leste asiático e China.
Pequim manda mensagens dúbias de crítica e apoio
A decisão de Pyongyang de efetuar o teste atômico sem conversar previamente com Pequim parece ter incomodado os chineses, que passaram o dia de ontem mandando mensagens dúbias na imprensa estatal. O ministério das Relações Exteriores da China afirmou que o teste nuclear foi condenável, mas deixou claro que a política de amizade e apoio entre os dois países continua.
Para os EUA, pressionados por dois conflitos internacionais aparentemente fora de controle no Iraque e no Afeganistão, apoiar uma solução conjunta para a crise no Conselho de Segurança parece ser o caminho mais prudente. E, para isso, dizem os analistas, os americanos contam com a influência de Pequim sobre Pyongyang.
Inclui quadro:O arsenal de Pyongyang