Título: Lula: vantagem com o pé atrás
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 12/10/2006, O GLOBO, p. 2

Com mais alívio do que euforia petistas e governistas receberam a pesquisa Datafolha mostrando aumento na vantagem de Lula sobre Alckmin. Segundo auxiliares, ela produziu visível melhora no humor do presidente, embora ele mesmo esteja evitando as tentações do salto alto. ¿Não me encanto nem me entristeço com resultados de pesquisas¿, dizia ele ontem, antes da sabatina com colunistas do GLOBO.

Foram quase duas horas de dura inquirição sobre os mais diferentes assuntos: do que mais incomoda Lula ¿ o caso do dossiê e a origem do dinheiro com que seria comprado ¿ aos que ele aborda com mais franca satisfação, o Bolsa Família e a política externa. Mas esteve ali o tempo todo um candidato disposto a cumprir a tarefa inescapável numa disputa em segundo turno: responder, explicar, esclarecer e enfrentar algumas vezes o contraditório dos jornalistas.

Foi antes do início da sabatina propriamente dita que ele minimizou a boa notícia do dia.

¿ Não é que eu não acredite em pesquisas. Eu acredito muito em pesquisas. Acontece que há momentos em que as coisas mudam de repente. Nenhum resultado é definitivo. Veja o caso de Jaques Wagner, na Bahia. Vamos ser francos, só ele acreditou o tempo todo que ia ganhar.

Até a véspera da eleição, as pesquisas previam a vitória do governador Paulo Souto. No sábado à noite, apontaram a possibilidade de segundo turno, mas no domingo o petista teve mais de 50% dos votos.

¿ Foi muito bom para a Bahia criar uma referência política nova depois de 16 anos de carlismo.

Dezesseis, não, corrigiu-se: ¿Devem ser 70, afora o curto intervalo do governo Waldir Pires, que cometeu o erro de deixar o governo para ser vice de Ulysses Guimarães¿. Mas fez elogios ao governador Paulo Souto, que considera ¿o melhor quadro do PFL¿.

Se a pesquisa foi uma ducha fria para os tucanos, que esperavam o início de uma virada, e o presidente tenta recebê-la com cautela e caldo de galinha, para petistas e aliados ela trouxe grande alívio. Temiam algum efeito nefasto do debate de domingo na TV Bandeirantes, após amplas avaliações de que Alckmin teria saído vencedor ao apresentar-se como uma dose inaudita de agressividade e virulência. Agora é corrente entre governistas a avaliação, que teria sido captada por pesquisas qualitativas, de que o tucano errou na dose. Sendo desrespeitoso e insolente para com quem é candidato mas ocupa a Presidência da República, teria projetado arrogância. É possível que uma parte do eleitorado não tenha gostado, assim como é evidente que outra parte, a dos que já votam em Alckmin, gostou muito e ganhou mais razões para defendê-lo como alternativa a Lula. Mas o importante é a definição dos que votaram em Heloísa Helena e Cristovam Buarque, e a pesquisa Datafolha mostrou claramente que Lula está ganhando frações maiores desses eleitores: enquanto Alckmin perdeu nove pontos percentuais entre ex-eleitores da senadora, Lula ganhou quatro.

Mas mesmo para esse deslocamento de votos deve ser buscada explicação fora do debate, que, segundo a pesquisa, na avaliação dos eleitores terminou em empate técnico (43% para Alckmin e 41% para Lula), com ligeira vantagem para o tucano. Como destacou Mauro Paulino, diretor do Datafolha, ¿se ele teve influência, foi entre os eleitores de renda e escolaridade mais altas¿, por conta certamente de limitações na cobertura da emissora. Como nesses segmentos Lula já é minoritário, seu crescimento tem muito pouco a ver com o debate. Da mesma forma, a oscilação negativa de Alckmin pode ter relação, talvez até mais direta, com o apoio de Garotinho no Rio e com crises entre seus aliados.

É neste pé que começa hoje o horário eleitoral na televisão. Fora dele, Lula e Alckmin farão mais um debate, o da TV Globo, discursarão e darão outras entrevistas como a de ontem. Para o candidato da oposição, tudo é palanque. Para Lula, que é avesso a entrevistas, tem contas a prestar sobre o governo e enfrenta o escândalo do dossiê, eventos como o de ontem são desconfortáveis, mas são também oportunidades. Ele se irritou visivelmente quando Miriam Leitão perguntou se ele queria que acreditássemos que não perguntou a nenhum dos envolvidos sobre a origem do dinheiro. Mas discorreu com relativo prazer sobre as perspectivas da economia, prevendo um ciclo virtuoso de crescimento a taxas de 5% e sobre realizações do governo em áreas diversas, como energia e transportes. Para mim, continuam pouco claras, assim como continuam obscuras no discurso de Alckmin, a receita de cada um para enfrentar o déficit da Previdência e a natureza do ajuste fiscal a ser feito. O governo não convence quando diz que isso é desnecessário e Alckmin é evasivo quando fala em acabar com ministérios ou fechar os ralos da corrupção.