Título: EM BUSCA DE UMA POLÍTICA PARA PYONGYANG
Autor:
Fonte: O Globo, 12/10/2006, O Mundo, p. 37
O anúncio do teste de uma bomba nuclear feito pela Coréia do Norte vai servir de incentivo para outras nações se tornarem nucleares, vai pôr em risco a segurança na região e poderá resultar no surgimento do terrorismo nuclear.
Enquanto o teste é a concretização de uma aspiração de longa data da Coréia do Norte de se tornar uma potência atômica, também mostra a total falha da política do governo Bush voltada para aquele país. Por quase seis anos esta política tem sido uma estranha combinação de dura retórica com inércia.
O presidente Bush, ainda em seu primeiro mandato, incluiu a Coréia do Norte no que chamou de ¿eixo do mal¿. Fez duras críticas ao governo norte-coreano e disse que não ia tolerar um programa de armas atômicas no país, mas não deu limites às ações do governo norte-coreano. O mais importante desses limites seria o impedimento do funcionamento do reator nuclear e a conseqüente produção de matéria-prima para bombas.
O governo Clinton deixou claro em 1994 que se a Coréia do Norte voltasse a investir no programa bélico nuclear, cruzaria uma linha perigosa e poderia se ver envolvida em uma crise militar com os EUA. O governo norte-coreano respondeu às pressões e começou a negociar. O acordo não pôs fim às aspirações nucleares do país, mas resultou em um importante adiamento do programa. Por mais de oito anos, o acordo feito com os norte-coreanos fez com que o programa nuclear do país fosse supervisionado por organismos internacionais. Tínhamos o controle da situação.
No entanto, em 2002, o governo Bush descobriu a existência de um programa norte-coreano secreto de enriquecimento de urânio, um evidente desrespeito ao que foi acordado. Desde então, a reação sempre foi de duras críticas e acusações, mas poucas negociações. Recentemente, a Coréia do Norte também realizou um grande teste com mísseis em 4 julho, e nada de substancial foi feito. Os norte-coreanos testaram sua bomba dias depois de os EUA terem dito que isso era inaceitável.
Os fatos fazem parecer que o governo está profundamente dividido sobre como lidar com a situação. Alguns são favoráveis a negociações e outros a imposições imediatas de sanções econômicas e políticas. Enquanto discutem sobre isso, nenhuma estratégia é de fato implementada. Os governos da China e da Coréia do Sul também não aparentam estar prontos para a ação. Ambos estão inertes diante da paralisia americana.
Diante disso, o que pode ser feito para que consigamos exercer uma influência positiva sobre a Coréia do Norte? Muitas alternativas estão na mesa, mas ainda não ha disposição para levá-las adiante.
WILLIAM J. PERRY foi secretário de Defesa dos EUA entre 1994 e 1997 e escreveu este artigo para o Washington Post