Título: REGIME PROMOVE LEALDADE CEGA
Autor: Helena Celestino
Fonte: O Globo, 13/10/2006, O Mundo, p. 25
Repressão e propaganda forte mantêm norte-coreanos obedientes
PEQUIM. Enfrentando fome em grandes proporções, uma economia em pandarecos e antigos aliados comunistas abraçando o capitalismo, a liderança norte-coreana há muito transformou fraqueza em força preparando a população permanentemente para a guerra. Os anos de preparo deram frutos, dizem os especialistas. Com restrições mais amplas a caminho, após o teste nuclear de segunda-feira, Pyongyang parece confiante de que seu povo sofredor ¿ acossado por fome, inundações e desgoverno econômico ¿ se curvará e continuará a sofrer em silêncio. Esta é uma certeza importante na decisão do regime de detonar um suposto artefato nuclear.
Muitas das táticas de intimidação da Coréia do Norte para manter sua população na linha são comuns a regimes totalitários de outros lugares. Mas Pyongyang as levou ao extremo, dizem os analistas. Há décadas, o regime vem submetendo os norte-coreanos a uma ofensiva de propaganda centrada no conceito de juche, a auto-estima. Nos últimos anos, afirmam os pesquisadores, o termo também passou a ter a conotação de confiança inquestionável na liderança dos ¿deuses vivos¿ Kim Il-sung, o fundador do país, e seu filho e sucessor Kim Jong-il. A verdade é que a comunista Coréia do Norte nunca teve autoconfiança, dependendo desde sua criação da União Soviética, e depois da China e da ONU e outros doadores internacionais para alimentar-se. Mas esse mito é parte da cola que une os norte-coreanos ao regime.
¿ Isso tem um impacto enorme na capacidade das pessoas de suportar adversidades ¿ diz Cui Yingjiu, diretor honorário do Instituto de Estudos da Cultura Coreana da Universidade de Pequim. ¿ Na maior parte dos últimos cem anos, os norte-coreanos não tiveram o suficiente para comer. Isso lhes dá uma enorme tolerância a problemas.
Reforçando a propaganda está o fato de que o regime não tem medo de usar força contra o menor sinal de dissidência. Refugiados norte-coreanos falam da existência de campos de detenção com entre 150 mil e 200 mil presos nas piores condições, de acordo com a Comissão de Direitos Humanos dos EUA para a Coréia do Norte, um grupo independente. Informantes são numerosos e cada cinco famílias ¿compartilham¿ um funcionário responsável por assegurar a adesão às regras e à ideologia do partido.
Oficialmente, todos no país passam duas horas por dia em aulas políticas, e todas as empresas e repartições públicas devem devotar os sábados à educação política, de acordo com o Centro de Estudos de Não-Proliferação, na Califórnia. Os estudantes passam dois meses por ano fazendo treinamento militar e as escolas gastam a maior parte do tempo ensinando o pensamento dos dois Kims, suas biografias e a história do partido comunista. Filmes e documentários sobre os dois líderes tomam 20% do tempo de transmissão na TV e nas rádios.
¿ Se você inculcar o juche e outras crenças durante décadas, acaba tendo uma profecia auto-realizante ¿ diz Andrew O¿Neil, da Universidade Flinders, na Austrália.