Título: PYONGYANG NÃO É PROBLEMA DE WASHINGTON
Autor: Helena Celestino
Fonte: O Globo, 13/10/2006, O Mundo, p. 25

WASHINGTON. Os Estados Unidos estão atolados no que parece ser uma guerra invencível no Iraque; enfrentam opções desagradáveis em relação ao programa nuclear iraniano; altos funcionários da Otan dizem que a situação no Afeganistão está se deteriorando rapidamente; na ex-União Soviética, Geórgia e Rússia se encaminham para um confronto militar, com Washington parecendo incapaz de detê-las; em grandes áreas da América Latina, novos movimentos nacionalistas e populistas desafiam interesses americanos.

E, agora, o regime totalitário da Coréia do Norte desafiou a comunidade internacional ao testar uma bomba nuclear ¿ e os EUA não parecem ter medidas militares ou econômicas efetivas com as quais responder.

Se tudo isso não provar a realidade do alcance excessivo americano, o que mais provaria? Se o poder dos EUA deve ser colocado sobre bases firmes, este exercício deve ser mais limitado. Certos compromissos devem ser reduzidos ou mesmo eliminados se o país quer ser capaz de se concentrar em lidar com inimigos e desafios mais vitais.

Este não é um argumento para o isolacionismo, mas para um tipo de estratégia global calma, inteligentemente adotada por líderes como Franklin D. Roosevelt, Dwight Eisenhower e Richard Nixon: um desejo corajoso de reconhecer as maiores ameaças aos EUA e lidar com preocupações secundárias de forma apropriada. Isto é algo que Washington acha cada vez mais difícil fazer, porque está dividido entre uma multidão de lobbies domésticos e presidido por um governo que superestimou o poder americano.

Em conseqüência, envolveu-se em lutas em várias partes do mundo simultaneamente, algumas vezes em assuntos triviais.

Há uma região que os EUA deveriam deixar agora: Coréia. O teste da bomba da Coréia do Norte é obviamente um problema muito sério para os Estados Unidos, dada a sua forte presença militar na Coréia do Sul. Entretanto, deveríamos perguntar por que, mais de 50 anos após a Guerra da Coréia e 15 anos depois do fim da Guerra Fria, os EUA ainda têm cerca de 37 mil soldados na península coreana.

No fim das contas, as armas nucleares da Coréia do Norte são um problema imenso apenas para seus vizinhos, e deveria ser responsabilidade deles resolvê-lo. Naturalmente, eles podem fracassar ¿ mas a história americana na região, na última década, não tem sido exatamente um sucesso.

Washington já vem reduzindo o nível de tropas na península coreana; poderia acelerar o processo e se encaminhar rapidamente para o fim de sua presença militar. Sobretudo, poderia negociar um tratado de paz com a Coréia do Norte. Isso removeria o motivo de Pyongyang para atacar interesses americanos, garantiria que a China nunca mais atacasse forças americanas em terra e permitiria ao país se concentrar em manter sua superioridade naval e aérea sobre a China.

ANATOL LIEVEN e JOHN HULSMAN são autores do livro ¿Realismo ético: uma visão do papel americano no mundo¿ e escreveram este artigo para o ¿Washington Post¿