Título: INVESTIGAÇÃO APONTA FALHA NO CONTROLE DE VÔO
Autor: Evandro Éboli, Martha Beck e Tulio Barndao
Fonte: O Globo, 14/10/2006, O País, p. 16
Comissão já teria concluído que Boeing poderia ter sido desviado. Comando da Aeronáutica diz que relatório não apontará culpados
Marqueiro e Tulio Brandão
BRASÍLIA, RIO e SÃO PAULO. A comissão que investiga o acidente entre o Boeing 737-800 da Gol e o Legacy já teria concluído que os controladores de vôo deveriam ter desviado a rota do avião de carreira, de modo a evitar a colisão que provocou a morte de 154 pessoas no norte de Mato Grosso. A notícia foi dada ontem pela Rádio CBN, que ouviu fontes da Aeronáutica.
O Comando da Aeronáutica confirmou ontem que um relatório preliminar da comissão que investiga o acidente será divulgado, mas não apontará culpados nem mostrará qualquer conclusão sobre os motivos que levaram ao choque do Boeing com o Legacy. Os dados que constarão no relatório serão semelhantes aos de um boletim de ocorrência, relatando apenas os fatos, como horário de contato entre os aviões e a torre de controle.
Segundo os militares ouvidos pela CBN, ao não conseguirem fazer contato com os pilotos do jato executivo, os controladores não partiram para um segundo plano, que era o de tentar mudar o caminho do Boeing. Como não sabiam a altitude exata do Legacy ¿ já que o transponder não estava funcionando ou estava desligado ¿ os controladores não poderiam alterar a altitude do avião da Gol, mas teriam como desviá-lo para o lado. Ainda de acordo com a reportagem da CBN, um controlador experiente poderia ter agido rapidamente, evitando a colisão.
Ex-controlador diz que desvio não é prática comum
Em reportagem publicada anteontem no GLOBO, o brigadeiro Renato Costa Pereira, ex-secretário-geral da Organização de Aviação Civil Internacional (Oaci), já afirmava que o controle aéreo poderia ter falhado, por não ter determinado a mudança de rota do Boeing.
Desde o dia do acidente, as autoridades da Aeronáutica vêem negando a hipótese de falha no controle aéreo. Anteontem, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) reconheceu que, em tese, a manobra de desvio de aeronave é um procedimento possível, mas não informou se poderia ser aplicada ao caso do Boeing. Ontem, o presidente da Infraero, brigadeiro José Carlos Pereira, disse que uma mudança de rota seria um procedimento extremamente arriscado, já que o Boeing da Gol voava em rota e altitude corretas.
Já o segundo-sargento da reserva Elmar Moreira, ex-controlador de vôo da Força Aérea Brasileira (FAB), afirmou que o desvio de aeronaves, em circunstâncias como as do momento da colisão entre o Boeing e o Legacy, não é uma prática comum:
¿ Não é usual no controle de tráfego aéreo desviar uma aeronave simplesmente por supor que uma outra estaria fora de rota. A medida, neste caso, é manter a primeira aeronave na rota e se orientar pelo plano de vôo da segunda. O controlador não poderia imaginar que um piloto descumpriria o plano de vôo sem avisar ao controle.
Elmar acredita que as causas do acidente serão desvendadas, já que os investigadores dispõem de dados importantes, como o depoimento dos sobreviventes do Legacy e as caixas-pretas dos aviões.
¿ Quase nunca a investigação conta com tantas informações. As causas serão desvendadas. Particularmente, acho que a tripulação do Legacy não estava preparada para assumir o comando do avião, não tinha intimidade com os equipamentos ¿ diz ele.
O Ministério da Aeronáutica e a Infraero serão investigados por denúncias de sobrecarga de trabalho dos controladores de vôo. A investigação, motivada por denúncias que surgiram após o acidente entre o Legacy e o Boeing, será comandada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) de São Paulo. Segundo o MPT paulista, as denúncias tratam de descumprimento dos intervalos entre jornadas de trabalho, dificuldade de obter folgas e regime disciplinar rígido dos controladores. O inquérito foi proposto pelo procurador do MPT em São Paulo, Fábio de Assis Fernandes.
¿ As notícias indicam a possibilidade de descumprimento de normas de proteção à segurança e à saúde no trabalho ¿ disse o procurador.
Transcorridos 15 dias desde a queda do Boeing, ainda faltam ser localizados os corpos de três das 154 vítimas. Ontem, mais uma pessoa foi encontrada e outras quatro, identificadas pelo IML do Distrito Federal. O comando da operação corre ainda contra o relógio para encontrar o cilindro de uma das caixas-pretas, que contém o registro de voz e será fundamental para checar os procedimentos finais dos pilotos da Gol e desenhar o retrato do momento do choque com o jatinho Legacy.
No fim da tarde de ontem, na região da Serra do Cachimbo, onde a aeronave caiu, foi localizada a base onde a caixa-preta ficava instalada no Boeing, oferecendo uma referência para o rastreamento da equipe de peritos. A busca pelo cilindro, que contém dados de voz, continua hoje.
Um grupo do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal foi enviado ontem para o local do acidente. Junto com a equipe, seguiram três cães labradores, farejadores, que serão utilizados na busca dos corpos restantes. Por conta da forte chuva na região, os cães serão levados somente para o local exato da queda do avião. A tempestade obrigou a suspensão do trabalho dos oito helicópteros ontem na Serra do Cachimbo.
Mais duas vítimas sepultadas no Rio
O corpo encontrado ontem foi transportado para a Fazenda Jarinã e, por causa do mau tempo, permaneceu na área. O IML do DF informou ontem que 144 das 154 vítimas do acidente da Gol já foram identificadas. Segundo o diretor do IML, José Flávio de Souza, dez corpos ainda precisam de identificação. Cinco já estão em Brasília para este trabalho, um está na Fazenda Jarinã, um foi localizado ontem no local do desastre e outros três ainda estão sendo procurados. Ontem, mais duas vítimas já identificadas foram sepultadas no Rio, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap: Ruth e Oscar de Jesus.
Segundo o IML de Brasília, 127 vítimas foram identificadas por impressão digital e 13 por exames antropológicos, como o da arcada dentária. Apenas quatro das cinco crianças que estavam a bordo do Boeing foram identificadas por testes de DNA.
O chefe da sessão de antropologia forense da Polícia Civil do DF, Malthus Fonseca Galvão, explicou que o método de identificação das três pessoas que ainda não foram localizadas vai depender da forma como os corpos forem encontrados. Quanto mais demorar, mais difícil ficará a identificação por impressão digital, o que pode exigir exames antropológicos ou de DNA. Galvão, que ficou dez dias no local do desastre, lembrou que as condições de trabalho também são difíceis porque, como o avião de despedaçou no ar, o raio de busca é muito extenso, chegando a mais de 20 km. Mesmo assim, a pré-identificação feita no local da queda tem ajudado a descobrir quem são as vítimas.