Título: A soma dos fatores
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 15/10/2006, O GLOBO, p. 2
Na semana que passou, três pesquisas apontaram a rápida e surpreendente reação do presidente Lula, frustrando apostas na continuidade da onda ascendente que levou Geraldo Alckmin ao segundo turno. Enquanto há campanha nada está ganho nem perdido, mas a campanha de Lula aprumou-se logo depois do tombo e acertou o passo, enquanto a de Alckmin gasta energia consertando erros e tentando sair da defensiva em que foi lançada.
Recapitulando os resultados das pesquisas em votos válidos: Datafolha, 56% x 44%; Ibope, 57% x 43%; Vox Populi, 55% x 45%. Todas elas mostram crescimento maior do presidente em relação aos resultados do primeiro turno. Lula saiu das urnas com uma vantagem de sete pontos percentuais sobre Alckmin. Em votos válidos, a vantagem agora estaria entre 10 (Vox Populi), 12 (Datafolha) e 14 (Ibope) pontos percentuais. Lula cresceu oito pontos, o tucano apenas dois, em votos totais, segundo o Ibope. Como Lula saiu do primeiro turno abatido por um novo escândalo, sob fogo cerrado do adversário e perdendo eleitores por conta de um erro tático, a falta ao debate, sua rápida recuperação provoca compreensível estranhamento. Não há, entretanto, uma só explicação, nem tudo se explica por acertos seus ou erros do outro. A primeira coisa a ser lembrada é que ele deixou de ganhar no primeiro turno por muito pouco, 1,4% dos votos válidos. Um percentual que ele pode facilmente ganhar entre os ex-eleitores de Heloisa Helena e Cristovam Buarque, mesmo que a maioria deles opte pelo tucano. Mas as pesquisas mostraram também que Lula avançou sobre eleitores de Alckmin em alguns segmentos: entre os que ganham de 5 a 10 salários mínimos, Lula cresceu quatro pontos, segundo o Datafolha (de 41% para 45%) enquanto Alckmin caiu três (de 51% para 48%). Entre os que têm o segundo grau, Lula ganhou 4 pontos e Alckmin perdeu 5. Entre os de curso superior, Lula ganhou dois e o adversário perdeu três.
Estes deslocamentos um tanto exóticos devem ser explicáveis, primeiramente, pela dissipação do impacto causado pelo escândalo do dossiê, reavivado na véspera da eleição pela ampla exibição das imagens do dinheiro apreendido. Com o estrepitoso resultado do primeiro turno, o assunto ainda está na mídia mas perdeu força. A ausência de Lula ao debate da TV Globo tirou-lhe muitos votos mas foi também foi logo neutralizada por entrevistas e pelo aviso de que iria a todos os debates.
No primeiro teste do segundo turno, a montagem das alianças, Lula fez um acordo muito melhor no Rio. Uniu-se ao candidato favorito e juntos agregaram quase todas as forças políticas do estado. A má repercussão do apoio dos Garotinho ao tucano certamente contribuiu, pelo menos no Rio, onde Heloísa Helena teve 17% dos votos. A rejeição aos Garotinho e o perfil ideológico de pelo menos uma parte dos eleitores da senadora já devem ter produzido migração favorável ao presidente. As ovelhas da esquerda voltam a rebanho. Até um sulfúrico crítico de Lula como o sociólogo Chico Oliveira agora quer lhe dar uma chance.
Veio o debate da TV Bandeirantes e já não se discute que Geraldo Alckmin conseguiu o efeito inverso ao procurado com seu estilo Mike Tyson. Se ele deixou exultantes os eleitores que já tinha, deixou perplexos os que ainda não tinham se definido. Errou ao superestimar a onda que produziu o segundo turno. Ela não era necessariamente anti-Lula. Foi engrossada por eleitores que desejam o segundo turno para escolher com mais clareza. Outros, talvez, para dar um castigo em Lula. O tempo veio e Lula até aqui o aproveitou melhor. Alckmin agora está tentando combinar na dose adequada seu perfil propositivo com os ataques a Lula em seu ponto fraco, o déficit ético do governo e o caso do dossiê.
Deve completar este quadro o efeito da retórica petista, no melhor estilo ¿terrorismo eleitoral¿ de que Lula já foi vítima. A denúncia de que Alckmin faria novas privatizações e um duro arrocho fiscal tem surtido efeito. E surte porque faz sentido, porque tais políticas estão no histórico dos governos tucanos, seja o de Fernando Henrique ou o do próprio Alckmin. E há, por fim, o conforto econômico dos mais pobres e a qualidade superior do programa televisivo de Lula.
Mas faltam ainda duas semanas de campanha e nelas tudo pode acontecer. Falta a a revelação da origem do dinheiro do dossiê, que pende como espada sobre a candidatura de Lula.