Título: BOA DE BOLA, YEDA VIROU O JOGO
Autor: Maia Menezes
Fonte: O Globo, 15/10/2006, O País, p. 14
Meu esporte não é na canela; mas se a bola vier, eu corto¿, diz a jogadora de vôlei
presidente Itamar Franco, de quem foi ministra do Planejamento por quatro meses, em 1993
me da juventude (ela sentada, na ponta esquerda): paixão antiga
PORTO ALEGRE. O jogo de que ela gosta tem regras. É o que diz essa paulista, que escolheu ser gaúcha há 40 anos. Yeda Crusius, 62 anos, dava suas cortadas, na juventude, em times semiprofissionais de vôlei, em São Paulo, onde morava. Hoje, sente falta do encontro com as amigas da Associação Atlética do Banco do Brasil, onde costumava se reunir até antes da campanha eleitoral para campeonatos master ¿ mais recente tentativa de voltar à rotina atlética. Reclama de caneladas e chutes, que diz estar recebendo na disputa, a segunda majoritária em sua vida (a primeira, derrotada, foi pela prefeitura de Porto Alegre, em 2000).
¿ A minha briga é essa, do vôlei. Não gosto nem de ver luta livre, apesar de saber que é esporte também. Meu esporte é coletivo, com regras, tem uma rede no meio, não é na canela, nas costas. Mas se atravessar a rede para o meu lado, eu corto ¿ diz a economista formada pela USP, onde conheceu o marido, o economista Carlos Augusto Crusius, gaúcho de Passo Fundo.
O time de Yeda, azarão no campeonato eleitoral gaúcho, surpreendeu: contrariando os resultados de pesquisas divulgadas na semana da eleição, que apontavam o terceiro lugar, os tucanos chegaram à segunda fase da disputa como favoritos. O PSDB desbancou o PMDB do governador Germano Rigotto, que pontuava 34% dos votos válidos na última pesquisa Ibope divulgada no Rio Grande do Sul no primeiro turno. Olívio Dutra aparecia com 25%, empatado com Yeda. Ela diz que ouvia apenas a voz da torcida: mesmo com a desvantagem que os números mostravam, já se via no segundo turno. A primeira pesquisa Ibope para o segundo turno mostrou a tucana com 63% das intenções de voto, contra 29% de Olívio.
Deputada federal por três vezes, Yeda estreou no Executivo em 1993. Assumiu, influenciada pelo agora senador Pedro Simon (PMDB), o cargo de ministra de Planejamento, Orçamento e Coordenação por quatro meses, durante o governo Itamar Franco (1991-1994). Foi ali, revela, que viveu o seu maior desafio até aqui: ser a primeira ministra da Economia depois da polêmica Zélia Cardoso de Mello. Depois de deixar o cargo, a ex- ministra se tornou comentarista de economia no rádio e na TV. No ano seguinte, elegeu-se deputada federal pelo PSDB.
¿ Naquela hora, eu disse: ¿Não me metem medo¿. Foram quatro meses espetaculares ¿ diz Yeda.
A passagem-relâmpago pelo ministério aumentou o gosto pela política e deixou a munição necessária para os adversários. Olívio Dutra afirma que a candidata defendia a privatização desde a época de ministério.
Outra munição usada pelos adversários é o fato de Yeda não ter nascido no Rio Grande do Sul. Em seu programa eleitoral, Olívio Dutra é apresentado como um ¿gaúcho de verdade¿. A rota da paulista mudou para o Rio Grande do Sul depois do encontro com o marido, com quem se mudou para Porto Alegre, logo depois de uma passagem pelos Estados Unidos. Hoje, ela fala como gaúcha:
¿ A questão aqui é a palavra que a pessoa dá. Como o PT: disse que era contra a reeleição e depois se coloca como querendo se eleger. Se a palavra é dita, tem que ser cumprida.
A primeira mulher a dirigir a Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS pode estar prestes a ser protagonista de outro marco histórico. Concorre a ser a primeira mulher a governar o Rio Grande do Sul.
¿ O homem fala grosso, mas respeita muito a mulher. A mulher não fala muito, mas manda pra caramba aqui ¿ diz a ex-deputada, que hoje reconhece o peso da disputa no contexto nacional:
¿ O olhar do Brasil está aqui. Pela primeira vez o PSDB colocou uma candidatura. Nós ajudamos outros três governadores a serem eleitos com vice. E a força do PSDB sempre afirmei que existia. E quem comanda o projeto é quem está na cabeça de chapa.
Mãe de um casal de filhos e com quatro netos, Yeda diz que não quer se mudar para o Palácio Piratini, residência oficial do governo do estado, caso seja eleita, no próximo dia 29.
¿ Eu quero continuar com a minha liberdade e preciso manter o equilíbrio. E acredito que a gente se equilibra com os pés fincados no chão ¿ diz. (M.M.)