Título: NO SUL, PT TAMBÉM ESPECULA COM PRIVATIZAÇÃO
Autor: Maia Menezes
Fonte: O Globo, 15/10/2006, O País, p. 14
PSDB substitui PMDB como partido de mais nítida oposição aos petistas, esquentando disputa pelo Piratini
PORTO ALEGRE. Tem jeito de final de campeonato de futebol, mas é o segundo turno da disputa rumo ao Palácio Piratini. A polarização, que marca a história do Rio Grande do Sul, dá o tom nas ruas. Com time novo em campo: o da candidata tucana, Yeda Crusius, que surpreendeu ao chegar ao segundo turno com 32,9% dos votos, tirando do PMDB o papel de adversário número 1 do PT no estado. O embate será com o ex-governador Olívio Dutra (PT), que recebeu 27,39% dos votos. Uma amostra do clima pode ser vista todos os domingos, no Parque Farroupilha, em Porto Alegre: novos maragatos e ximangos repaginados tomam as ruas, com bandeiras de PSDB e PT. Repetindo o palanque nacional, reeditam a batalha vivida entre os revolucionários e os republicanos na revolução federalista de 1893.
Ao entrar em campo para a segunda fase da disputa, a tática petista gaúcha repetiu a nacional. A campanha de Olívio Dutra disseminou a especulação de que a adversária vai privatizar o Banrisul, o banco estadual. Tudo começou com uma declaração polêmica, dada pelo candidato a vice na chapa tucana, Paulo Feijó, defendendo a privatização do banco. Foi o suficiente: com vinhetas que lembram a usada por Lula contra Geraldo Alckmin, o PT associa o PSDB gaúcho à privatização.
¿ O campo adversário tergiversa sobre isso. Porque não tem sintonia entre o que diz a candidata e seu vice. Tem que estar atento, sim. Até porque tem o risco. Está escrito nos discursos dela, quando deputada ¿ afirma Olívio Dutra.
Para amenizar o estrago das declarações de Feijó ¿ que repete: vai tentar convencer a tucana a privatizar o Banresul ¿ Yeda se apressou em desmentir a possibilidade. E na quinta-feira, em um ato de apoio dos partidos aliados, entrou em campo com a jaqueta do banco.
¿ O Feijó defendeu essas idéias como líder empresarial. O PT usa métodos repugnantes, tentando intimidar o eleitorado com mentiras, com discursos feitos no passado ¿ afirma a ex-deputada, se referindo a defesas que fez quando deputada federal.
Cartão amarelo para Lula no RS
Se levou o petista Olívio Dutra ao segundo turno, o gaúcho deu um cartão amarelo ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no campeonato eleitoral: ele recebeu 33% dos votos, contra 55% de Geraldo Alckmin (PSDB). Em 2002, Lula tivera 55,84% dos votos válidos no estado, contra 44,16% do então candidato José Serra.
¿ O gaúcho, brasileiro por opção, tem um controle maior sobre os políticos. Há uma profunda decepção com o governo Lula, e isso o gaúcho deixa claro ¿ diz a professora de ciência política da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul Maria Izabel Noll, para quem a polaridade tão presente na política gaúcha pode ser explicada pela proximidade do estado com o sistema político-partidário platino.
¿ Tenho as carinhas dos quatro deputados gaúchos envolvidos com a máfia dos sanguessugas. Ninguém votou neles lá em casa. Votei no Lula em 2002 e não acertei ¿ diz o taxista Anselmo Gonçalves.
O recado do eleitorado gaúcho a Lula foi fruto da repercussão do ¿dossiegate¿, na avaliação da presidente regional do PT, Margareth Moraes:
¿ Isso abalou a militância aguerrida, que chamamos de maré vermelha. Agora entramos em uma disputa entre o PT (aliado apenas com o PSB e com o PCdoB) e todos os outros.