Título: EQUADOR: POUCAS PROPOSTAS E MUITAS ACUSAÇÕES
Autor: Mariana Timoteo da Costa
Fonte: O Globo, 15/10/2006, O Mundo, p. 43

Após campanha marcada por bravatas, equatorianos vão indecisos hoje às urnas escolher seu novo presidente

QUITO. Mais de nove milhões de equatorianos vão às urnas, hoje escolher seu novo presidente após uma campanha marcada por troca de acusações, indecisão e candidaturas com planos que não poderiam ser mais diferentes para o país. Todos os 13 candidatos, especialmente os três com mais chances de se eleger, no entanto, têm uma coisa em comum: apresentaram pouquíssimas (ou nenhuma) propostas para reduzir os males que assolam o Equador, país onde 42% da população vivem na pobreza, sendo 30% em situação extrema, sobrevivendo com menos de US$1 por dia.

Pesquisa de opinião divulgada ontem aponta um segundo turno entre o nacionalista de esquerda Rafael Correa, da Aliança País, e o magnata de direita Álvaro Noboa, do Partido Renovador Institucional Ação Nacional (Prian). Segundo a enquete Cedatos-Gallup, Correa teria 31,1% das intenções de voto, contra 25,2% de Noboa. O terceiro colocado, León Roldós, da aliança de centro-esquerda Rede, Ética e Democracia (RED), teria 19%. A margem de erro é de três pontos percentuais.

Na análise do advogado e sociólogo Jacinto Velásquez, da Universidade Estadual de Guaiaquil, que concorreu à Presidência 2002, esta foi a campanha ¿mais chata e sem fundamento da história do país¿. Segundo ele, Correa, Noboa e Roldós passaram os últimos meses discutindo temas ¿de caráter macro¿, como se são amigos ou inimigos do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, se vão ou não dissolver o Congresso, se assinarão ou desprezarão um Tratado de Livre Comércio (TLC) com os EUA, se pretendem rever a adoção do dólar como moeda, e o que pretendem fazer com as reservas de petróleo.

¿ Os temas de caráter micro, mas muitas vezes mais importantes, foram negligenciados: como melhorar saúde, segurança, educação e emprego; como conter o êxodo de equatorianos (mais de um milhão nos últimos cinco anos, numa população de 13 milhões) que deixam o país porque não têm oportunidades aqui ¿ enumera o especialista.

Graciela Orán, de 52 anos, vende flores na praça em frente ao Convento de São Francisco, no centro de Quito. Como 81% dos equatorianos, não dispõe de qualquer seguro ou plano de saúde e depende dos hospitais públicos, que quase inexistem: há 1,5 leito para cada mil habitantes no Equador.

¿ Tive um problema de vesícula há um ano e não consegui me consultar gratuitamente com nenhum médico. Os hospitais públicos sempre cobram US$1. Além disso, temos que pagar por todos os remédios. Acabei tendo que fazer uma cirurgia, em que gastei todas as minhas economias: US$300 ¿ conta.

Rafael Bodegar, de 50 anos, é parte dos 58% da população economicamente ativa equatoriana que estão desempregados ou subempregados. Quando dá, diz que trabalha como ambulante nas ruas de Quito. Mora num albergue, como muitos habitantes pobres da capital, onde paga US$0,50 por noite, e divide um quarto com até 15 pessoas.

¿ Muitas vezes não tenho o que comer ¿ diz ele, enquanto espera numa fila organizada, uma vez por semana, por Guadalupe Llanganate, dona de uma vendinha, que distribui um pedaço de pão e café aos pobres. ¿ Hoje, é a única coisa que eu vou comer.

Somente dois em cada 10 equatorianos terminam o ensino médio. Cerca de 700 mil jovens não têm acesso à educação básica. Moradora de San Roque, um dos bairros mais pobres de Quito, Maria Yoshi, de 12 anos, quer driblar esta estatística. Como muitas crianças indígenas, ela ajuda a mãe no trabalho de vendedora de frutas.

¿ Trabalho de manhã, mas estudo à tarde. Quero ser médica ¿ conta, talvez desconhecendo que, apesar de não haver estatísticas de quantos equatorianos completam a universidade, um recente levantamento da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso) mostrou que há apenas 200 pessoas com diploma de doutorado no país.

Muitos equatorianos vivem ilegalmente na Espanha

Para Velásquez, os candidatos não abordaram o problema.

¿ O que candidatos como Correa não vêem é que, caso o nível de educação do país não melhore, a população vai continuar escolhendo políticos ruins. Assim como continuaremos a registrar mais crimes e a exportar nossos cidadãos que, se tivessem emprego aqui, não iriam viver na Espanha, na Itália, ou nos Estados Unidos. Tudo é uma vergonha ¿ diz o especialista.

Hoje, os equatorianos só perdem para os marroquinos em número de cidadãos no exterior. A maior parte deles vive, ilegalmente, na Espanha.