Título: O povo gosta de paternalismo¿
Autor: Mariana Timóteo da Costa
Fonte: O Globo, 16/10/2006, O Mundo, p. 19
QUITO. O cientista político e jornalista Francisco Borja, diretor da TV Amazonas, uma das mais influentes do Equador, prevê uma campanha de 2º turno com intensos debates e muita polêmica. ¿A votação mostrou que a população está muito dividida e isso é muito ruim para a estabilidade do país.¿
Qual a mensagem enviada pelas urnas nestas eleições?
FRANCISCO BORJA: A principal é o descontentamento da população com os partidos políticos. Tanto a Aliança País (de Rafael Correa) como o Prian (de Álvaro Noboa) não são legendas tradicionais. A população mostrou que quer mudanças. O problema é que o país polarizou entre a extrema-esquerda e a extrema-direita, e isso é muito ruim para a sua estabilidade.
O que pode se esperar desta campanha de segundo turno?
BORJA: Muito debate e muita polêmica. Devido à divisão, não me espantará se Correa abaixar o tom de seu discurso nacionalista e chavista, e Noboa parar de falar que ¿vai livrar o Equador de ser uma ditadura como Cuba¿. Os dois devem buscar um caminho mais ao centro. E a população continuará sem rumo.
Será difícil para qualquer um dos dois governar?
BORJA: Muito. A resistência a Noboa é enorme entre a parcela da população mais intelectualizada, de esquerda, das cidades grandes, que ocupa as ruas. O radicalismo de Correa descontenta aos políticos, às Forças Armadas. Será difícil qualquer um permanecer os quatro anos no governo.
Mas o povo não está cansado de tanta instabilidade?
BORJA: O problema é que o povo equatoriano gosta de um líder paternalista, que tome conta dele. Claro que temos muitos problemas, mas aqui espera-se que o governo resolva tudo, e não pode ser assim. Então, o povo continua tentando com Noboa e Correa. Mais uma vez, em 25 anos de democracia, nenhum partido terá vencido mais de uma vez uma eleição para presidente. (M.T.C.)