Título: EQUADOR DIVIDIDO ENTRE POPULISTA E NACIONALISTA
Autor: Mariana Timóteo da Costa
Fonte: O Globo, 16/10/2006, O Mundo, p. 19

Bilionário Álvaro Noboa surpreende e supera o esquerdista Rafael Correa no 1º turno da eleição presidencial, segundo resultados iniciais

Um Equador extremamente dividido levou ao segundo turno dois candidatos que não poderiam ter características e propostas mais distintas nas eleições presidenciais realizadas ontem. Praticamente empatados, segundo pesquisas de boca-de-urna e resultados preliminares, o populista de direita Álvaro Noboa, do Partido Renovador Institucional Ação Nacional (Prian), e o nacionalista de esquerda Rafael Correa disputarão a Presidência do país no dia 26 de novembro.

Pesquisas divulgadas até a véspera do pleito mostravam Correa na frente, mas a boca-de-urna já apontava o crescimento do magnata da banana. No início da noite o prognóstico se confirmava: com 41,5% dos votos apurados, Noboa tinha 26,9% e Correa 22,5%.

Diante dos primeiros números divulgados, o esquerdista, que esperava ganhar no primeiro turno, prometeu contestar os resultados.

¿ Já que falaram que a gente tem que ir para o segundo turno, agora vamos ganhar ¿ disse. ¿ Mas essa empresa brasileira, a E-Vote, que faz a contagem rápida dos votos, precisa ser investigada.

A Organização dos Estados Americanos (OEA), que tinha mais de 120 observadores internacionais no país, garantiu que a votação ocorreu de forma tranqüila e justa.

Os dois candidatos já trocavam pesadas e inconsistentes acusações desde o momento em que as pesquisas de boca-de-urna foram divulgadas, exatamente um minuto depois do encerramento da votação, às 17h (19h no horário de Brasília).

¿ Vou livrar o Equador do coronel Correa, que quer implantar aqui uma ditadura como a de Cuba e da Venezuela ¿ afirmou Noboa, na TV, referindo-se à amizade de Correa com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.

Correa rebateu:

¿ Fazer fortuna empregando crianças, sonegando impostos, comprando e fraudando votos é fácil. Com Noboa, seremos uma colônia americana ¿ disse o esquerdista.

Na análise do cientista político Simon Pachano, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), a eleição não poderia ter sido mais polarizada:

¿ O magnata exportador de bananas, de propostas neoliberais, contra o nacionalista que quer dissolver o Congresso e mudar tudo em nosso país.

Resultado oficial prometido para hoje

O analista prevê um segundo turno extremamente tenso, com críticas mútuas e poucas propostas concretas para o Equador ¿ país em que, depois de uma década de instabilidade, três presidentes foram eleitos, mas nada menos do que sete governaram. O grande temor é que nenhum dos dois consiga terminar o mandato de quatro anos.

¿ Podemos esperar tensão e protestos pela frente ¿ diz Pachano, lembrando que tanto Noboa quanto Correa enfrentam altos índices de rejeição, o que se traduziu nas urnas com as expressivas votações do terceiro e do quarto colocados: o centro-esquerdista León Roldós, e o independente Gilmar Gutiérrez, irmão do presidente deposto em 2005, Lucio Gutiérrez, receberam cada um cerca de 13% dos votos, de acordo com a boca-de-urna.

Correa votou pela manhã numa escola na zona norte de Quito, onde recebeu apoio de eleitores que ignoraram a lei eleitoral ¿ que proíbe manifestações em recintos eleitorais ¿ e entoavam palavras de ordem.

Noboa quebrou o protocolo ao mostrar para as câmera suas cinco cédulas à medida em que ia votando, numa igreja de Guaiaquil.

¿ Agradeço a todos os pobres que votaram em mim. Vamos criar empregos e dar casa e saúde para vocês ¿ disse o candidato, conhecido por sair em campanha distribuindo aparelhos de TV, comida e até dinheiro vivo aos eleitores.

Noboa afirmou que pretende não manter nenhuma relação com a Venezuela, e acusou Correa, Chávez e o presidente da Bolívia, Evo Morales, de quererem iniciar ¿uma revolução ditatorial comunista na América Latina¿.

A empresa brasileira E-Vote, contratada para realizar uma contagem rápida dos votos pelo TSE do Equador, prometia divulgar os resultados finais na madrugada de hoje. O TSE, que conta os votos paralelamente, deve demorar entre três e quatro dias.