Título: INQUIETUDE NO EQUADOR
Autor: Mariana Timóteo da Costa
Fonte: O Globo, 18/10/2006, O Mundo, p. 44
Candidatos pedem ao Ministério Público que brasileiros da E-Vote sejam mantidos no país
A lentidão e a subseqüente queda do sistema de processamento e divulgação dos votos (criado pela empresa brasileira E-Vote) das eleições de domingo no Equador geram protestos entre vários setores da sociedade. Gustavo Larrea, coordenador nacional da Aliança País (movimento do candidato nacionalista de esquerda Rafael Correa), confirmou ao GLOBO ter enviado um pedido ao Ministério Público para que os diretores da E-Vote não deixem o Equador até que dêem explicações plausíveis sobre o que ocorreu. O mesmo fez o advogado de Gilmar Gutiérrez, do partido Sociedade Patriótica, terceiro colocado na votação, que alegou que a ¿fraude impediu o candidato de chegar ao segundo turno¿.
Os dois partidos foram criticados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Equador e por analistas políticos de usarem ¿uma estratégia de fraude¿ para chamar a atenção e causar confusão. Em meio à inquietação dos equatorianos, que até ontem desconheciam o resultado das eleições, o presidente do TSE, Xavier Cazar, disse ao GLOBO, estar ¿frustrado e vivendo dias difíceis¿ por conta das falhas da empresa brasileira, contratada pelo tribunal por US$5,2 milhões para fornecer o resultado rápido da votação. Cazar confirmou o cancelamento unilateral do contrato com a empresa.
¿ Qualquer resultado que eles apresentarem agora, não será válido ¿ disse o presidente do TSE, que entrou com um processo para reaver a metade do valor do contrato, que havia sido pago, mais uma multa de 5% sobre o valor do contrato.
Gustavo Larrea diz que o problema com a E-Vote é, na verdade, uma fraude.
¿ Sustentamos que a confusão criada pela empresa brasileira faz parte de uma trama de fraude eleitoral ¿ afirmou, admitindo, no entanto, não ter nenhuma prova concreta contra a E-Vote e o TSE.
Mas tanto Xavier Cazar quanto Rafael Bielsa, chefe da Organização dos Estados Americanos (OEA), que observa o processo eleitoral de forma independente, descartaram qualquer ocorrência de fraude. Para eles, a população precisa se concentrar agora na apuração oficial realizada pelo TSE, cujo resultado está prometido para amanhã. Até a noite de ontem, 73,23% dos votos haviam sido apurados, e o populista de direita do Prian Álvaro Noboa estava na frente com 26,10%, e Rafael Correa em segundo, com 23,26%.
¿ Peço um pouco de calma aos equatorianos, para que uma festa democrática tão bonita como a que ocorreu no domingo não seja estragada ¿ disse Bielsa.
TSE afirma que o contrato foi rompido
Cazar insistiu que o contrato com a E-Vote foi rompido, apesar de funcionários da empresa continuarem em Quito, processando os dados obtidos tanto para presidente quanto para deputados federais. A E-Vote alegou que ainda não recebeu notificação oficial do TSE sobre o rompimento do contrato. Cazar, no entanto, garantiu que o documento já foi enviado.
Rafael Bielsa criticou o presidente do tribunal equatoriano e a imprensa local por não explicitarem que o trabalho da E-Vote no país era apenas um benefício extra para os equatorianos, que conheceriam os resultados muito antes da apuração manual e oficial do TSE, prevista para ser concluída somente uma semana após o pleito ¿ o que poderia evitar tantas críticas e protestos.
¿ Informamos, sim. O problema é que os descontentes sempre buscam, aqui no Equador, motivos para protestar e fingem não entender as coisas. A falha na E-Vote serviu como mero pretexto. Os arruaceiros capitalizam em cima da decepção das pessoas ¿ disse Cazar, não escondendo sua intranqüilidade com o processo, ainda no primeiro turno.
Ele contou que sua filha tem recebidos ¿telefonemas estranhos¿ na escola. O prédio do TSE, na zona norte de Quito, está cercado por soldados e policiais, porque alguns manifestantes têm jogado pedras nas janelas durante os protestos. Cazar disse que, provavelmente, não contratará uma empresa de contagem rápida de votos para o segundo turno das eleições, no dia 26 de novembro.
Apesar dos protestos e críticas ao TSE, e das alegações de que deveria ter ganho no primeiro turno, a campanha de Rafael Correa baixou um pouco o tom, ontem. Gustavo Larrea garantiu que o candidato possui uma boa estratégia de campanha, para vencer ¿a oligarquia branca de terceiro mundo¿ de Álvaro Noboa. Já o candidato do Prian afirma que seu partido conseguiu ¿pelo menos 30 das cem cadeiras no Congresso¿, o que facilitará seu governo. Antes, o Prian tinha dez.
Xavier Cazar disse ainda que, pela lei, o TSE têm até dez dias depois da votação, quarta-feira da semana que vem, para completar a divulgação de todos as cinco categorias votadas na eleição (presidente, deputado, conselheiros estaduais e municipais, e parlamentares andinos).