Título: A raiva na campanha
Autor: Tereza Cruvinel
Fonte: O Globo, 20/10/2006, O GLOBO, p. 3
A busca desesperada de um fato novo pelos aliados do candidato Geraldo Alckmin informa que os recursos convencionais para tentar barrar a reeleição de Lula se esgotaram, e sua campanha passa a depender do imponderável. Não há uma só explicação para a dinâmica invertida deste segundo turno, mas está claro que um dos erros da campanha tucano-pefelista foi a elevada beligerância e o tom odioso, adotado mais pelos aliados que pelo próprio candidato.
Se as pesquisas estão certas, Alckmin pode até encolher no segundo turno. Ontem o Vox Populi confirmou vantagem de 20 pontos percentuais para Lula, apontada pelo Datafolha. Hoje, o Ibope deve apresentar números semelhantes. Como dizem os especialistas, a ¿boca do jacaré¿ está se abrindo. Referem-se à inclinação divergente das linhas de evolução de cada candidatura nos gráficos das pesquisas.
Como parece haver sempre um petista disposto a se meter num desvão criminoso, fato novo ainda pode aparecer. As investigações sobre o dossiê estão aí, o sigilo bancário de Freud Godoy e Hamilton Lacerda foi quebrado ontem, já aparece dinheiro do bicho no caixa montado para comprar o dossiê dos Vedoin. Mas, se a eleição terminar com números próximos dos das pesquisas, a campanha de Alckmin será matéria-prima para estudos de especialistas em marketing e campanhas. Teve tudo para ser vitoriosa, mas acabou perdendo o impulso que o levou ao segundo turno.
O horário eleitoral é apenas uma das formas de comunicação eleitoral, mas em segundo turno ele cresce de importância. Pesquisa Datafolha divulgada ontem constatou que, para 44% dos brasileiros, atacar o adversário é ¿nada importante¿. O mais importante num programa, segundo os entrevistados, é ser ¿verdadeiro¿ e ¿claro¿ na apresentação de propostas. O programa de Lula é considerado mais verdadeiro (50% a 35%), claro (52% a 39%), criativo (52% a 38%), comovente (53% a 28%), bem produzido (51% a 39%) e bem-humorado (50% a 27%). O único quesito em que Alckmin ganha é ¿o que faz mais crítica ao adversário¿ (64% a 26%).
Alckmin resistiu muito às pressões dos aliados para adotar uma linha mais agressiva no rádio e na TV. Seu publicitário, Luiz Gonzalez, defendia a manutenção do tom propositivo, que o tornaria mais conhecido e o transformaria em alternativa de governo. Só no fim do primeiro turno ele partiria para a desconstrução de Lula, atacando-o no flanco da corrupção e da eficiência. Mas as pressões foram grandes e, ainda antes do estouro do caso dossiê, Alckmin endureceu. O escândalo tornou essa opção irrevogável.
Mas não foi apenas o programa eleitoral que associou a campanha de Alckmin, por natureza polido e afável, ao ódio, à aspereza e à beligerância. Alguns de seus aliados, com destaque para Jorge Bornhausen e Tasso Jereissati, carregaram muito nesse sotaque, em suas declarações e nos atos eleitorais. Esse comportamento ganhou as ruas, produzindo fatos de bizarra violência, como a briga em que uma lulista teve o dedo decepado por uma defensora de Alckmin.
Quando Alckmin radicalizou nessa estratégia, no debate da TV Bandeirantes, deu-se mal. Vitimizou Lula, que passou em seguida ao ataque, impondo o tema das privatizações. O debate no SBT não entra em consideração aqui, por razões de horário. Previa-se um confronto duro mas em outro tom.
É grande o repertório de campanhas negativas que deram certo. Exemplo mais recente, a de Calderón contra Obrador no México. Mas há pressupostos que precisam ser observados para que elas funcionem. Alguns, certamente, não estavam presentes na atual disputa presidencial.
A campanha de Lula vai pedir aumento do teto de gastos, fixado em R$ 89 milhões. A de Alckmin (R$ 85 milhões) fará o mesmo. Houvesse o limite de gastos, eles se ajustavam.