Título: Um ídolo insuperável apenas nos números
Autor: Claudio Nogueira
Fonte: O Globo, 22/10/2006, Esportes, p. 65

Michael Schumacher encerra a carreira longe de ser uma unanimidade entre jornalistas e pilotos do circo

SÃO PAULO. O que mais pode querer um homem sete vezes campeão mundial de Fórmula-1, recordista de vitórias, com 91 triunfos (Prost e Senna somados têm 92), e de poles positions, com 68? Alguém que é considerado um capítulo vivo da história de sua modalidade e do esporte como um todo? Só quem pode dar estas respostas é um alemão chamado Michael Schumacher, que resolveu ganhar a vida como piloto de Fórmula-1. Mais do que isso, decidiu se tornar o melhor do mundo naquilo que faz.

Hoje, no GP do Brasil, ele tentará o oitavo título mundial, contra todas as probabilidades, para se despedir das pistas em sua última prova como um vencedor. Talvez, o mais curioso em relação a ele é que desperta igual admiração e igual rejeição de pessoas que amam a Fórmula-1. Para o tricampeão mundial (1981, 1983 e 1987) Nelson Piquet, não há muita dúvida sobre quem é o maior piloto de todos:

¿ Schumacher é o campeão dos campeões. Ganhou tudo, bateu todos os recordes.

Interesse pela F-1 deve cair na Alemanha em 2007

Curiosamente, de acordo com a jornalista alemã Karim Sturm, da agência especializada Racing Press, que fala português e costuma vir para São Paulo no inverno europeu, em dezembro, embora seu compatriota tenha sido o maior de todos os tempos, a F-1 vai sobreviver sem ele:

¿ Vai um campeão, e vem outro. Não que vá ser esquecido, mas vamos nos acostumar aos outros campeões.

Na Alemanha, segundo Karim, o interesse pela F-1 deve cair um pouco. Mas há tanta participação alemã na categoria, seja de pilotos quanto de equipes, que não acontecerá como no tênis, em que Boris Becker e Steffi Graf não tiveram substitutos.

¿ Mesmo na Alemanha ele nunca foi amado como um Becker ou um Beckenbauer. Schumacher sempre foi mais admirado pelas classes populares que pela elite ¿ diz Karim, sem esconder certo tom crítico em relação ao astro. ¿ Particularmente, nunca entendi a personalidade dele. O que ele fez com Damon Hill e Jacques Villeneuve (jogando seu carro sobre os dos rivais, em 1994 e 1997), diziam que era coisa da juventude. Mas, e o que ele fez este ano em Mônaco (onde parou o carro em local proibido para evitar que Fernando Alonso fizesse a pole e acabou punido). Senna também fez manobras assim, mas foi honesto e admitiu o erro. Este lado duvidoso de Schumacher sempre vai ficar ¿ afirma ela, que é autora do livro ¿Senna: sua vitória e seu legado¿, em português, inglês e alemão.

Provavelmente por ser discreto e não expor a família, Schumacher talvez nunca tenha se tornado amplamente conhecido de seu público.

¿Todos reconhecem ser ele um grande campeão, mas não conhecem seu coração. Não sabem direito quem é ele ¿ diz o italiano Andrea Cremonesi, do ¿La Gazzetta dello Sport¿.

Entre pilotos na ativa, os brasileiros Rubens Barrichello e Felipe Massa ¿ ex parceiro e atual companheiro do alemão na Ferrari ¿ têm opiniões divergentes. Se Massa defende publicamente ser o alemão o maior de todos, Barrichello se filia à corrente que reserva tal glória a Ayrton Senna.

¿ A F-1 é grande por si só. Quando eu disse que Schumacher poderia cair no esquecimento, quero dizer que Senna foi o personagem mais carismático da categoria. Ele conseguiu ser conhecido até nos Estados Unidos, onde a F-1 não é tão popular ¿ sustenta Barrichello.

O ¿Esporte espetacular¿, da Rede Globo, de hoje, vai apresentar uma reportagem de Kerpen, cidade onde Schumacher viveu a partir dos 10 anos. O repórter Renato Ribeiro mostra o começo da carreira do heptacampeão, desde a primeira pista de kart até o museu que o pai montou para homenageá-lo.

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