Título: PF RASTREIA LARANJAS EM CAXIAS
Autor: Chico de Gois
Fonte: O Globo, 23/10/2006, O País, p. 3

Dólares para a compra de dossiê vieram de corretora no município da Baixada

APolícia Federal acredita estar próxima de esclarecer a origem e o caminho dos US$248,8 mil que seriam usados por petistas para a compra de um dossiê contra os tucanos. Policiais envolvidos na investigação identificaram uma corretora de câmbio em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que seria a fonte do dinheiro.

A polícia identificou que US$249,9 mil foram sacados dessa corretora, em várias oportunidades, por um grupo de pessoas. A PF tem certeza de que os sacadores são ¿laranjas¿ e já descobriu que seriam de família humilde. Possivelmente, documentos de seus integrantes tenham sido usados para registrar os saques.

Apesar de os dólares comprados da corretora ultrapassarem em US$1,1 mil o dinheiro apreendido em moeda americana, policiais apontam que o excedente se refere a taxas da operação. A PF pretende chamar os sócios da corretora para prestar depoimento, assim como os sacadores. Nesta semana, os policiais planejam fazer diligências no local.

Para seguir a trilha dos dólares, o Departamento de Inteligência da PF cruzou cerca de 800 ligações telefônicas com dados bancários. Parte dos dólares apreendidos com o ex-policial federal Gedimar Passos e com o petista Valdebran Padilha, quando presos em São Paulo, estava seriada, o que permitiu saber que esses recursos integravam um lote de dólares adquirido legalmente pelo banco Sofisa e depois repassado para corretoras de câmbio, que venderam para casas de câmbio e, em seguida, para particulares.

Caxias já havia aparecido nas investigações

O valor total apreendido com os petistas soma R$1,7 milhão. No rastreamento das notas em real ¿ R$1,1 milhão ¿, a PF também teve a atenção atraída para Duque de Caxias. Os policiais encontraram, envolvendo os maços de reiais, cintas com a inscrição ¿Caxias - 118¿, entendida pela polícia como típica de bancas de jogo do bicho. Porém, mostraram-se infrutíferas as diligências realizadas semana passada para tentar comprovar que parte dos reais teve como procedência o jogo do bicho. A PF acredita que as bancas seriam controladas por Antônio Petrus Kalil, o Turcão, que negou participação no esquema do dossiê.

O cruzamento das ligações telefônicas, embora ainda não tenha determinado quem sacou o dinheiro, revelou que ¿pessoas conhecidas¿ tiveram contato com os petistas implicados no escândalo. O ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu recebeu e retornou um telefonema para Jorge Lorenzetti, apontado até agora pela PF como o articulador nacional da operação. O advogado de Dirceu, José Luiz de Oliveira Lima, confirmou os telefonemas, mas negou que a conversa tenha tratado do dossiê.

Outra ¿pessoa conhecida¿ que manteve contato com Lorenzetti foi o chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho. No dia da prisão de Valdebran e Gedimar, Carvalho ligou para Lorenzetti para, segundo ele, informar-se sobre o que estava acontecendo. De acordo com Carvalho, em nenhum momento Lorenzetti admitiu participação no esquema.

A oposição, no entanto, quer que Dirceu e Carvalho prestem depoimento à CPI dos Sanguessugas. Para o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP), ¿não há mais dúvida de que o Palácio do Planalto sabia dessa operação criminosa¿.

Gabeira suspeita de ligações para Lorenzetti

O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) questionou a troca de telefonemas entre Carvalho e Lorenzetti.

¿- Se o chefe de gabinete da Presidência queria se informar sobre a prisão de duas pessoas que não tinham destaque no PT, por que não ligou para o presidente do partido, deputado Ricardo Berzoini? Por que ligar para Lorenzetti, que cuidava da parte de inteligência da campanha? ¿ perguntou.

Gabeira também não entende por que o superintendente da Polícia Federal no Mato Grosso, Daniel Lorenz, anunciou, na quinta-feira, que o cruzamento telefônico havia identificado ¿uma pessoa conhecida¿ e não duas, uma vez que Carvalho tem acesso ao presidente da República. O PT, no entanto, argumenta que as ligações de Dirceu e de Carvalho para o churrasqueiro do presidente não significam nada, como admite o próprio Lorenz, que fez questão de declarar que é necessário investigar mais.

Na semana passada, o partido sugeriu ao juiz da 2ª Vara Federal, Jefferson Schneider, que decretasse o fim do sigilo de Justiça do processo sobre a compra do dossiê. Schneider autorizou apenas a divulgação do relatório parcial da Polícia Federal.