Título: PARA MERCADO, LULA SAIRÁ ENFRAQUECIDO DAS URNAS
Autor: Helena Celestino
Fonte: O Globo, 25/10/2006, O País, p. 11

Diretora de agência de classificação de risco diz que petista terá dificuldades para fazer alianças e aprovar reformas

NOVA YORK. O mercado financeiro internacional prevê que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai chegar mais enfraquecido ao poder neste segundo mandato por causa da série de denúncias de corrupção contra seu governo. Por isso, Lula terá de aproveitar o capital ganho nas urnas para rapidamente criar uma agenda de reformas e, ao mesmo tempo, estabelecer uma larga aliança política para poder aprová-las no Congresso.

A análise é de Liza Schineller, diretora do Departamento de Ratings da corretora Standard and Poor's, uma das responsáveis pela classificação do risco que o Brasil oferece aos investidores. Atualmente, a nota brasileira é BB, ainda abaixo da classificação máxima ¿ investment grade ¿ que permitiria ao país e às empresas brasileiras pagar juros menores no mercado internacional. Ontem, Schineller e outros especialistas em América Latina participaram, em Nova York, de um painel para discutir as perspectivas econômicas de Brasil, México, Colômbia, Peru e Equador após as eleições.

¿ Seja qual for a agenda do novo governo brasileiro, ela terá de ser negociada, mas não será fácil fazer alianças. O ideal seria ter o time econômico e a equipe política articulando lado a lado. Melhor que seja logo, para aproveitar o capital das urnas ¿ disse Schineller.

Todos os especialistas de Wall Street concordam que o Brasil fez progressos impressionantes na economia nos últimos quatro anos, o que se reflete numa eleição sem estresses econômicos. Mas, segundo a Standard and Poor's, ainda existe uma grande fragilidade na questão fiscal, e um dos desafios do novo presidente será reduzir os gastos do governo, para permitir uma redução da carga de impostos e possibilitar o crescimento mais acelerado da economia.

¿ O nível da dívida e dos gastos do governo têm um efeito importante na taxa de crescimento. A carga fiscal dificulta os investimentos das empresas, por isso, seria importante o governo reduzir a carga fiscal para facilitar uma maior competitividade na economia. Gastos menores e melhor composição dos gastos, do nosso ponto de vista, reduziriam o risco Brasil no mercado ¿ disse Schineller.

Segundo ela, o risco do país cairia e os investimentos externos cresceriam se o país também reduzisse a rigidez das leis trabalhistas, melhorasse a administração e a infra-estrutura, atacando junto as distorções do mercado de capital ¿ entre elas a alta taxa de intermediação cobrada pelos bancos. Para a analista, o mercado espera que Lula detalhe as políticas de seu próximo governo assim que assumir.

¿ Estamos esperando os sinais de quais serão as políticas a serem implementadas. Nós conhecemos as políticas mais gerais do PSDB e do PT, mas o PMDB vai ser importante no governo e isso é uma questão que esperamos ficar mais clara ¿ diz Schineller.