Título: TERCEIRA VIA AMEAÇA BUSH
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Fonte: O Globo, 25/10/2006, O Mundo, p. 39

Voto dos eleitores independentes pode dar a maioria do Congresso dos EUA aos democratas

O caos no Iraque, os escândalos sexuais e de corrupção de deputados republicanos e até mesmo recentes denúncias de que o círculo próximo do presidente George W. Bush usou propositalmente o discurso moralista só para conquistar o voto conservador cristão - e não por defender os declarados valores morais - não são as únicas ameaças ao Partido Republicano nas eleições do dia 7 de novembro. Pesquisas e análises de cientistas políticos apontam um novo fenômeno na política americana: a força do eleitorado independente pode estar mudando a cara do bipartidarismo dos Estados Unidos. E os eleitores sem filiação partidária parecem estar dispostos a varrer os republicanos do Congresso.

- O voto dos independentes está mudando tudo - disse Hal Butler, um ex-prefeito democrata de 81 anos da cidade de Show Low, no Arizona, ao jornal "New York Times" - Eles serão a nova força política do país.

E esta força pode empurrar os republicanos para fora do Congresso. Uma pesquisa divulgada ontem pelo jornal "Washington Post" mostra que 95% das pessoas que se consideram democratas votarão em democratas para deputado e senador e 88% dos republicanos tentarão eleger candidatos de seu partido. Mas entre os independentes, 59% dizem que votarão em democratas, contra 31% no partido de Bush. Essa diferença nunca foi grande em todas as pesquisas deste ano.

Na soma geral, 54% dos entrevistados disseram que votarão em democratas nas eleições do mês que vem, contra 41%. Esta diferença de 13 pontos percentuais é maior do que a vantagem de republicanos em relação aos democratas captada pelas pesquisas duas semanas antes das eleições de 1994, quando o partido de Bush tomou 52 cadeiras que eram ocupadas por democratas e conquistou a maioria da Câmara depois de 40 anos.

Nas próximas eleições, os democratas precisam tomar dos republicanos 15 cadeiras na Câmara e seis no Senado para ter a maioria nas duas casas.

Na cultura política americana, o eleitor normalmente tem um partido, numa tradição que no interior passa de pai para filho. Em 25 estados, é exigido que os eleitores se registrem no órgão eleitoral como membros de um partido. Mas uma onda de eleitores, principalmente jovens, está se declarando independente em vez de escolher "ser" republicano ou democrata. Há sinais de que o mesmo ocorre em estados em que não é preciso tal registro.

A onda dos independentes está modificando a relação de forças em vários locais. Segundo o "New York Times", Arizona, New Hampshire e Califórnia estão entre os estados em que mais cresceu o número de pessoas que procuram evitar os dois partidos. E já se pode sentir a mudança nas urnas.

Democratas também se preocupam

Na Califórnia, estado tradicionalmente democrata, um republicano moderado ocupa o governo. No conservador Arizona, a luta entre as duas alas republicanas - os "libertários", que defendem o Estado mínimo com poucos impostos, e os conservadores cristãos - levou os mais ligados às questões econômicas a deixarem a legenda. Muitos dos libertários devem votar em democratas.

- Essa imagem do conservador "me deixe em paz", defensor do governo mínimo, não se encaixa mais no Partido Republicano moderno - disse o escritor Ryan Sager, ao "Times."

Em New Hampshire, um dos estados mais politizados dos EUA, 40% dos eleitores se dizem independentes.

Para a maior parte dos independentes, a guerra no Iraque é a questão mais importante para a decisão de seu voto segundo o "Post." Destes, 76% vão votar em democratas.

Quando o assunto é a economia, a Coréia do Norte e ética no governo, os independentes dão preferência aos democratas. Até na questão do terrorismo os independentes preferem os democratas.

Mas os dados que indicam uma onda independente no país não agradam o Partido Democrata tampouco. Metade dos independentes que disseram que votarão em democratas não farão isso devido à qualidades dos candidatos, mas à aversão aos republicanos.

- No momento, os dois partidos estão muito distantes do povo - afirmou Gary Butler, de 60 anos, filho de Hal Butler, e que está deixando o Partido Democrata para se tornar independente.