Título: NO RIO, LARANJA SACOU 44 MIL EM DÓLARES
Autor: Chico de Gois
Fonte: O Globo, 26/10/2006, O País, p. 8
Mulher diz à PF que seu nome foi usado pela corretora Vicatur, de Nova Iguaçu
BRASÍLIA, CUIABÁ e RIO. Depois de interrogar a dona de casa Viviane Gomes da Silva no Rio, a Polícia Federal disse que poderá esclarecer ainda esta semana a origem de parte do R$1,7 milhão que seria usado por petistas para comprar um dossiê contra tucanos. Viviane disse à PF que o nome dela foi usado pela casa de câmbio Vicatur, de Nova Iguaçu, numa operação de venda de US$44,3 mil.
Para a PF, o dinheiro faria parte de um pacote de US$249,9 mil arrecadados pelos petistas para comprar o dossiê. A PF também sustenta que obteve importantes informações em documentos apreendidos na Vicatur e outros endereços ligados ao caso no Rio de Janeiro.
¿ A expectativa de solucionar o caso antes das eleições é enorme. A PF pegou forte o fio da meada ¿ disse um policial, depois de uma análise das informações de Viviane e dos documentos apreendidos.
Além de Viviane, pelo menos outras sete pessoas tiveram seus nomes usados para saques na Vicatur. A PF já tem certeza que pessoas de uma mesma família foram utilizados conscientemente para fazer os saques dos dólares, e portanto não são apenas laranjas, pessoas usadas por criminosos. De acordo com um policial, não foi a primeira vez que essas pessoas aceitaram ceder seus nomes e documentos para serem utilizados em transações com dólares.
Ontem, a PF apreendeu documentos na Vicatur e constatou que a casa de câmbio cometeu crime contra o sistema financeiro. Ao vender dólares, a casa se responsabiliza legalmente pela identificação do comprador e responde por falsidades.
Além de fazer diligências em Nova Iguaçu, a PF esteve com outra equipe em Ouro Preto. Segundo um policial, os resultados do trabalho na cidade mineira foram considerados ¿extremamente produtivos¿.
No interrogatório à PF, Viviane disse que não é dona dos US$44,3 mil relacionados a ela numa ficha recolhida na Vicatur. Viviane também revelou nomes de outros parentes que teriam sido usados como laranjas Vicatur. A PF não informou se foi a família dela que teria recebido vantagens para ceder os nomes usados nas operações de saque. Em nome do grupo, a Vicatur fez várias operações de venda de US$35 mil a US$45 mil. Somadas, estas operações chegam a US$249,9, quase o mesmo valor apreendido em poder de Gedimar Passos e Valdebran Padilha, no hotel Ibis em São Paulo, na fase final das negociações em torno do dossiê.
Viviane mora em Magé. Para a polícia, ela teria sido usada como laranja para esconder a identidade do verdadeiro dono dos US$249,9 mil. A PF deve terminar de ouvir ainda hoje outros parentes de Viviane e funcionários da Vicatur. A partir daí, os investigadores entendem que poderão descobrir quem, de fato, sacou o dinheiro. A polícia já sabe que o R$1,7 milhão foi levado a Gedimar Passos no hotel Ibis por Hamilton Lacerda, ex-coordenador de comunicação da campanha do senador Aloizio Mercadante (PT), ao governo de São Paulo.
Com base nestas novas informações, a polícia acredita que poderá descobrir quem repassou o dinheiro a Lacerda. Em relatório enviado à Justiça Federal, na sexta-feira passada, a PF também informa que pelo menos R$5 mil, do montante de R$1,7 milhão, teriam passado por uma das bancas do jogo do bicho, numa área controlada pelo bicheiro Artur Petrus Kalil, o Turcão, no Rio de Janeiro.
Oito laranjas seriam moradores de Magé
Ontem, três dias depois da divulgação do nome da agência Vicatur, a Polícia Federal realizou busca e apreensão na sede da casa de câmbio em Nova Iguaçu. Quatro agentes e um delegado chegaram ao local por volta de 11h e saíram ante do meio-dia, levando uma caixa. Os donos da agência, Sirley da Silva Chaves e Fernando Ribas Soares, saíram da agência junto com a polícia, mas apenas por volta das 16h, acompanhados pelo pai de Fernando, o advogado Jorge Ribas Soares, chegaram à sede da Superintendência de Polícia Federal, na Praça Mauá, para prestar depoimento.
O interrogatório durou cerca de quatro horas. A primeira a falar foi Sirley, que deixou a sede da PF por volta de 18h20m, sem dar entrevistas. O restante saiu por volta de 19h40m. Além da busca e apreensão, a Polícia Federal teria percorrido endereços de laranjas envolvidos no caso.
Oito laranjas usados na operação de compra de dólares na Vicatur seriam moradores de Magé. O GLOBO localizou um dos nomes, em Piabetá. No local, um trabalhador rural disse desconhecer que seu nome tenha sido usado em alguma operação de laranjas. Até a tarde de ontem, ele só havia sido procurado por jornalistas.
¿ Aqui não tem laranja. Eu planto pimenta, serve?
Ele explicou que, de início, imaginou que os jornalistas estivessem tentando fazer uma reportagem sobre galinheiros:
¿ Há cerca de um ano e meio fui entrevistado por causa da criação de galinhas. Fiquei famoso na região. Mas hoje estou trabalhando como pimenteiro.
O município onde viveriam os laranjas usados na operação da suposta compra do dossiê contra tucanos é um dos mais pobres da região metropolitana do Rio.
O GLOBO tentou localizar outros dois nomes de laranjas, mas eles não estavam em casa. Segundo vizinhos, nenhum agente federal passou por ali.