Título: DOSSIÊ: PF INVESTIGA LARANJAS TAMBÉM EM MINAS
Autor: Chico de Gois
Fonte: O Globo, 26/10/2006, O País, p. 8
Para policiais do caso, é reforçada a suspeita de que o esquema era nacional e ligado à campanha de Lula
CUIABÁ. A Polícia Federal acrescentou Minas Gerais na investigação sobre o caminho dos dólares que seriam usados para a compra de um dossiê contra os tucanos. Até agora, a PF havia feito diligências em Santa Catarina, Rio e São Paulo. Esta semana, o delegado Diógenes Curado Filho, que preside o inquérito, foi a Minas com sua equipe. Ontem, ele fez diligências em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense.
No rastro dos sacadores de dólares na casa de câmbio Vicatur, de Nova Iguaçu, a PF identificou duas pessoas que trabalhariam numa pousada em Ouro Preto. Uma delas, de origem humilde, teria retirado US$50 mil. Como no caso dos nove integrantes de uma família de Magé, a PF ainda não sabe se o sacador de Minas emprestou o nome para alguém ou se seu nome e documentos foram usados pelos criminosos sem que ele soubesse.
A PF suspeita que, além de Nova Iguaçu, parte dos dólares pode ter saído de Florianópolis e de São Paulo. Ao estender as diligências para outros estados, a PF nacionaliza a investigação e põe em xeque a versão do comitê da campanha de reeleição do presidente Lula de que a ação desastrada da compra do dossiê se restringiria a São Paulo, uma vez que o candidato derrotado do PT ao governo do estado, Aloizio Mercadante, poderia, em tese, se beneficiar das informações contra José Serra (PSDB).
Um policial envolvido nas investigações destaca que, se a operação fosse orquestrada pelo PT paulista, outros membros da campanha de Mercadante estariam envolvidos e a pulverização do dinheiro possivelmente se concentraria em São Paulo mesmo. Chama a atenção dos policiais o fato de os recursos terem como procedência outros estados.
Petistas teriam parte do dinheiro
A PF acredita que boa parte do R$1,1 milhão que se somaria aos US$288.800 para a compra dos documentos já estaria disponível com os petistas. O raciocínio do policial que faz parte da investigação baseia-se na cronologia dos eventos. Em depoimento à PF, o ex-diretor do Banco do Brasil Expedito Afonso Veloso narra três situações da negociação com os Vedoin antes da prisão de Valdebran Padilha e Gedimar Passos.
Expedito diz que esteve em Cuiabá em 23 de agosto para a primeira conversa com os chefes da máfia dos sanguessugas, que pediram R$20 milhões pelas informações, mas baixaram o preço à metade. Outro encontro foi em Brasília, em data que não menciona, quando pediram R$3 milhões. A terceira reunião foi em 7 de setembro, em Cuiabá, quando se falou em R$2 milhões.
A entrevista dos Vedoin à revista ¿IstoÉ¿, acusando Serra de envolvimento com o esquema, foi em 12 de setembro e a prisão dos petistas, no dia 15. Do momento em que se estipulou o valor do dossiê à prisão, passaram-se apenas oito dias, ou cinco dias úteis, tempo insuficiente para sacar R$1,7 milhão de forma parcelada. Isso leva a PF a crer que parte dos reais já estava em poder de alguém do PT e seria fruto de caixa dois de campanhas.
A PF suspeita que os envolvidos na compra do dossiê usaram telefones registrados em nomes de terceiros, além das linhas particulares. No cruzamento de ligações novos números foram descobertos mostrando que ligações foram feitas de celulares diferentes, por uma mesma pessoa, num mesmo lugar.