Título: BAIXARIA E TROCA DE ACUSAÇÕES NO PARÁ
Autor: Cássio Bruno e Cláudia Lamego
Fonte: O Globo, 26/10/2006, O País, p. 13
Petista é acusada de distribuir até freezers; polícia apreende material contra ela
BELÉM. A disputa pelo governo do Pará está acirrada. Na manhã de ontem, agentes federais entraram no quarto do hotel onde estava hospedado o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), em Marabá, para apreender jornais distribuídos gratuitamente com textos contra a candidata do PT, a senadora Ana Júlia Carepa. Os petistas acusaram a campanha do tucano Almir Gabriel de autoria da publicação intitulada ¿Imprensa livre¿, na qual aliados da candidata do PT aparecem presos e algemados: o deputado Jader Barbalho (PMDB-PA), o ex-senador Ademir Andrade (PSB-PA) e o deputado federal eleito Beto da Fetagri (PT).
Já os tucanos acusam a campanha petista de distribuir bicicletas, freezers e até canoas em troca de votos para Ana Júlia. A distribuição teria acontecido no interior do estado por aliados da petista, o que ela nega.
Caminhão com nove mil exemplares foi apreendido
A PF também apreendeu um caminhão com nove mil exemplares do tablóide na Avenida Almirante Barroso, principal via de acesso a Belém. Segundo a PF, o material seria levado à sede do PSDB. Exemplares semelhantes foram encontrados ainda no município de Marabá.
¿ A campanha do Almir Gabriel resolveu me atacar de forma desesperada ¿ reagiu Ana Júlia, que terminou o primeiro turno atrás de Gabriel e agora está na frente.
Os dois ocupantes do caminhão depuseram na PF em Belém e foram liberados. O material será encaminhado à Procuradoria da Justiça Eleitoral.
O motorista do caminhão, José Carlos Barbosa, disse que um homem desconhecido contratou o frete. O local combinado foi a empresa Transbrasiliana, no quilômetro 2 da rodovia BR-316, em Ananindeua. O valor combinado foi de R$100.
Segundo o motorista, no momento do embarque o contratante disse que o material era para propaganda eleitoral. O tablóide estava escondido embaixo de exemplares do ¿Correio Braziliense¿, jornal de Brasília.
¿ O motorista pegou o material na empresa Transbrasiliana e ia conduzi-lo até uma residência na Rua Roberto Camelier. Segundo informações do motorista esse material estaria sendo levado para a sede do PSDB ¿ disse o agente da PF Fernando Sérgio Castro.
Outra denúncia de crime eleitoral esquentou a campanha no Pará nos últimos dias. Na cidade de Maracanã, a Polícia Civil prendeu integrantes da direção da Reserva Extrativista do município, que estavam distribuindo eletrodomésticos, caixas-d¿água, bicicletas e canoas, acompanhados de santinhos de Ana Júlia.
Segundo informações da polícia, publicadas ontem no jornal ¿O Liberal¿, os objetos foram adquiridos com recursos do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). De acordo com o delegado Adelino Souza as circunstâncias em que os objetos estavam sendo entregues à população induziam que os beneficiados votassem na candidata petista. O deputado federal Zenaldo Coutinho (PSDB-PA) acusou o PT de crime eleitoral.
¿ Essa prática de comprar eleitores com objetos e recursos do Pronaf está se repetindo em todo estado. Eles entregam objetos ao lado de santinhos da Ana Júlia ¿ acusou Zenaldo.
Senadora rebate acusação de distribuição de objetos
Ana Júlia rebateu a acusação:
¿ Isso é uma armação contra mim. Eu desconheço qualquer distribuição de objetos por parte da minha campanha para comprar voto de eleitor.
A operação da PF para apreensão da publicação ¿Imprensa Livre¿ repercutiu no Senado, em Brasília. O líder do PSDB, senador Arthur Virgílio (AM), acusou a PF de invadir de forma truculenta o quarto do hotel onde estava o senador Flexa Ribeiro:
¿De nada adiantou ele se identificar como senador. Tentaram obrigá-lo a abrir uma mala, o que se recusou a fazer, mas a delegada o fez. Foi ato de flagrante arbitrariedade¿, afirmou Virgílio em nota. Ele cobrou providências do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que solicitou ao advogado-geral da Casa, Antônio Cascais, que peça informações ao Ministério da Justiça sobre eventual desrespeito ao senador paraense. Flexa Ribeiro também reagiu ao episódio:
¿ Fui vítima da violência. Não respeitaram nem a minha imunidade parlamentar.
A PF informou que cumpria um mandado judicial de busca e apreensão depois de receber denúncia anônima. Ontem à noite, a Procuradoria Eleitoral no Pará analisaria se iria liberar ou não a distribuição do jornal, já que o jornalista Ronaldo Brasiliense chegou a Belém ontem à tarde assumiu a responsabilidade pela publicação, o que tiraria seu caráter apócrifo.