Título: CHENEY: `NÃO HÁ MAL ALGUM' EM TORTURA
Autor:
Fonte: O Globo, 28/10/2006, O Mundo, p. 50
Vice-presidente diz não ser contrário à tecnica de afogamento de suspeitos de terror, mas Bush nega
WASHINGTON. O presidente Bush se apressou a negar, ontem, que o seu governo permite a tortura de presos políticos. Jornais exibiam trechos de uma entrevista do vice-presidente Dick Cheney a uma estação de rádio conservadora de Fargo, dizendo que não via mal algum no uso de técnicas de afogamento durante o interrogatório de suspeitos de terrorismo.
Scott Hennen, dono do programa, perguntou se Cheney concordava com a simulação de afogamento (método chamado de ¿submarino¿) de um suspeito de terrorismo, se isso ajudasse a salvar a vida de americanos. O vice-presidente não titubeou:
¿ Claro que concordo. Acho que a nossa capacidade de interrogar presos de alto valor, como Khalid Sheik Mohammed, tem sido uma ferramenta importante que nos torna capazes de garantir a segurança da nação. Mohammed nos forneceu informações valiosas sobre quantos eles são, seus planos, processos de treinamento e assim por diante. Aprendemos muito. Nós precisamos ser capazes de continuar a fazer isso.
Hennen insistiu:
¿ O senhor concorda que afundar (um prisioneiro) na água não tem a menor importância, se for para salvar vidas?
Cheney reafirmou:
¿ Bom, para mim não tem problema algum mas já fui criticado como sendo o vice-presidente da tortura. Nós não torturamos. Cumprimos nossas obrigações com tratados internacionais que assinamos.
Perguntado a respeito, ontem cedo, Bush afirmou:
¿ Nosso país não tortura. Não vamos torturar. Vamos interrogar pessoas que agarrarmos no campo de batalha para determinar se têm informações para proteger o nosso país.
Logo surgiram reações iradas. Tom Malinowski, diretor do Human Rights Watch foi incisivo e irônico:
-¿ O que Cheney está dizendo dá margem à, que se a Síria ou o Irã prenderem um americano, não haveria problema se afundarem a cabeça dele na água se acharem necessário para salvar vidas sírias ou iranianas.
John Sifton, pesquisador de terrorismo da entidade, emendou:
-¿ Acho que o contexto é claro: Cheney concorda com o que o entrevistador sugeriu.
Neal Sonnet, presidente da força-tarefa da Ordem dos Advogados dos EUA, disse que o significado das declarações é claro:
¿ Pode ser forte demais caracterizar isso como uma admissão direta. Mas ele certamente está sugerindo que não vê nada de errado com o uso do ¿submarino¿.
No último dia 16, Bush assinou uma lei criando novas regras para indiciar e interrogar suspeitos de terrorismo. Ela tornou legal, por exemplo, o sistema que a CIA, agência central de inteligência, vinha utilizando sigilosamente: transferindo pessoas para prisões secretas, no exterior, onde, segundo várias fontes do governo, elas eram interrogadas tanto sob a técnica do ¿submarino¿, como a da privação do sono por vários dias.