Título: Geraldo, por Sophia
Autor: Chico Otavio
Fonte: O Globo, 29/10/2006, O País, p. 8

Mesmo diante das dificuldades, Alckmin mantém frieza e solidão, quebrada pela presença da filha, que foi seu lugar-tenente durante toda a campanha

Anoite de quinta-feira, última volta do ponteiro da campanha, parecia especialmente fria para Geraldo Alckmin. Nem engarrafamento havia mais nas ruas de São Paulo quando o candidato tucano ia da produtora ¿ onde gravou a propaganda eleitoral ¿ para casa. O inesperado momento de agenda vazia foi consumido ao telefone ¿ duas ligações para dar parabéns por aniversários e uma de pêsames. Uma palavra de conforto para o amigo Jurandir pela morte da mãe. Após desligar, diz: ¿É o ciclo da vida¿. À exceção das protocolares presenças do motorista e de um assessor, o homem que desafiou o presidente Lula e levou o duelo a um difícil segundo turno estava sozinho. A companheira de todas as horas estava ocasionalmente ausente: Sophia, a filha que virou lugar-tenente na campanha.

O carro levou meia hora da Vila Leopoldina ao bairro do Morumbi. Pouco antes, o ¿Jornal Nacional¿, da TV Globo, divulgava mais uma pesquisa de opinião. A vantagem do adversário aumentara. Mas o semblante de Alckmin não denunciava o desconforto. Ele parecia inabalável. Um homem de volta a sua casa, após um dia exaustivo de trabalho, para receber a acolhida da família. Para mais uma conversa sobre a campanha, das que entram pela madrugada, com seus interlocutores preferidos.

¿ Meu pai faz um trabalho de formiguinha, aos poucos. Não faz barulho. Faz um trabalho na base. A coisa vai se multiplicando ¿ diz Sophia, olhar feliz, acentuado pelas lentes de contato.

¿Nem me lembro onde estive¿

Nomeada carinhosamente por Alckmin de assessora para o bem-estar pessoal, por cuidar de pequenos detalhes, como passar-lhe protetor solar, evitar que coma bobagens ou fique em jejum, a mais velha dos três filhos do ex-governador de São Paulo foi muito mais do que isso. Ao lado do pai desde a convenção que o sagrou candidato, após superar José Serra, ela não apenas foi uma observadora privilegiada de toda a campanha tucana. Foi, essencialmente, uma parte da família de Alckmin, valor fundamental para o candidato, levado por ele para todos os cantos do país.

¿ Nem me lembro em quantos estados estive. Acho que só deixei de ir a Roraima, Tocantins e Piauí ¿ diz ele.

Formada em direito (¿e aprovada no exame da OAB¿, acrescenta o pai) Sophia participa das campanhas de Alckmin desde criança, quando distribuída panfletos com os irmãos nas ruas de sua Pindamonhangaba. Desta vez, a dedicação foi integral. Após passar três meses em Los Angeles, aprendendo inglês, ela começou, em junho, inicialmente respondendo cartas e acompanhando o pai nas gravações da propaganda eleitoral. Depois, de camiseta e calça jeans, num estilo bem diferente dos tempos em que era gerente de Novos Negócios da Daslu, a loja mais luxuosa do país, correu o Brasil com o pai atrás de votos.

¿ Recebi o título de assessora do bem-estar porque me preocupava com ele. Tinha dias que a gente só dormia três horas. Meu pai só comia no avião. Passei a levar biscoitos e chocolate na bolsa. Passava protetor na careca dele ou levava o boné. No hotel, não deixava ele pedir sanduíche. Mandava trazer sopa ¿ conta ela.

Na reta final, Sophia acompanhou Alckmin em dois comícios ¿ Porto Alegre, no sábado, e Anhangabaú (São Paulo), na quarta-feira ¿ e no Rio de Janeiro, palco do debate na TV Globo. Livre dos cuidados que uma candidatura exige, agora ela fala do que viu nos palanques e em outros lugares onde esteve desde agosto:

¿ Engraçado é o empurra-empurra no palco. Todo mundo quer ficar perto do candidato.

Sempre que pôde, diz ela, o pai procurou dormir em casa durante a campanha. Nem que fosse por poucas horas. Ali, cercado da mulher, Lu, e dos três filhos ¿ Sophia, de 26 anos, Geraldo, de 24, e Thomaz, de 23 ¿ ele comentava o que fizera e queria ouvi-los.

¿ Meu pai ficou especialmente impressionado com uma ida ao Amazonas, ao lado de Arthur Virgílio. Visitou palafitas onde não havia luz elétrica e se espantou com o fato de as pessoas o conhecerem. Uma mulher explicou: as TVs funcionavam com geradores.

¿É muito contraste¿

A própria Sophia, que passou os últimos seis anos, até a saída do pai do governo, vivendo no Palácio dos Bandeirantes, também teve surpresas.

¿ No Acre, vi mulheres com baldes de água na cabeça atravessando pontes modernas. É muito contraste.

Sophia é cuidadosa. Evita comentar temas mais polêmicos como a difícil relação de Alckmin com os chamados intelectuais do PSDB ou como a hipótese de derrota que se desenhava (¿Vamos ganhar¿, sorri). Só eleva o tom para falar de pesquisas (nisso, pai e filha estavam afinados: ambos desafiam os institutos de opinião) e de hostilidades na campanha.

¿ Aconteceu de estarmos num lugar e aparecer gente do PT para afrontar. Isso a gente nunca fez ¿ diz ela.

A filha do candidato não gosta de rótulos e clichês. Mas pede licença para usar um deles, sobre os ¿vários países¿ dentro de um só Brasil:

¿ Meu pai teve uma excelente votação em São Paulo, mas aqui as pessoas, no máximo, fazem um gesto de ¿joinha¿ quando passamos. No Norte ou no Nordeste, é bem diferente. As pessoas são mais calorosas, nos abraçam, dizem que vamos ganhar.

Para Sophia, é um equívoco chamar o pai de reservado, distante e quase solitário politicamente. Ela prefere dizer que Alckmin é ¿um pouco reservado¿, mas cercado de amigos e habituado a dividir decisões com a equipe:

¿ Em Pinda, os amigos mais chegados o tratam até hoje por Geraldinho.

Confrontada com os supostos erros da campanha de Alckmin, Sophia desconversa mais uma vez. Repete o pai ao falar do apoio do ex--governador Anthony Garotinho (¿Ele é que quis dar¿) e concorda com o tom agressivo do pai no primeiro debate do segundo turno, na TV Bandeirantes:

¿ Foi ótimo. Ele precisava se posicionar. Tinha de mostrar indignação.