Título: AS RAZÕES DOS ELEITORES QUE ESCOLHEM O PETISTA
Autor: Aydano André Motta, Efrérm Ribeiro, Letícia Lins
Fonte: O Globo, 29/10/2006, O País, p. 17

Concentrado entre os mais pobres no primeiro turno, eleitorado se espalhou por classes sociais e regiões do país

e Paula Autran

Muitos estão no barco desde sempre; outros foram na maré do segundo turno; alguns vão na última hora ¿ de nariz tapado no ¿apesar dos pesares¿, mas vão. De qualquer jeito, idade, tamanho, procedência e classe social, eles contam-se às dezenas de milhões. Suficientes, com folga, para garantir a vitória folgada, apontam as pesquisas. Se no primeiro turno os eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva concentravam-se na base da pirâmide social, o desfecho da maratona cívica incluiu ricos e remediados no imenso grupo. Cada qual com seu porquê.

O de Silvânia Barbosa da Silva é simples, por pragmático. Faxineira de 31 anos, ela mora com o marido e os três filhos no bairro de Santa Isabel, em São Gonçalo, e, diariamente, entrega três horas de sua vida à viagem de ônibus para chegar ao trabalho, em Laranjeiras. As coisas, ela diz, estão melhores. Os três filhos na escola são ajudados pelo Bolsa Família. Os mantimentos andam baratos. No resto, dá-se um jeito. Silvânia nunca pegou numa bandeira do PT ¿ mas toda vez que tem Lula para votar, ela vai com ele. Como agora.

¿ A gente vive num mundo de esperança Ele sempre lutou pelos pobres, por isso confio nele ¿ resume ela, sem ignorar nem valorizar as denúncias. ¿ Eu acho que ele fez pelos pobres. Só de estar tentando ajudar já está ótimo. Não adianta dizer que o roubo aconteceu só agora. Politica é assim mesmo ¿ diz.

Catador de papel e arquiteto juntos

Para o arquiteto Luiz Fernando Freitas, as razões são mais ideológicas. Ex-filiado do PPS (¿Quando ainda era um partido progressista¿), ele votou em Ciro Gomes no primeiro turno de 2002 e, depois, esteve com Lula todas as vezes. O arquiteto chegou a falsear na sua convicção, quando as denúncias se enfileiraram.

¿ Toda a atitude do partido mostrou que a coisa não era bem assim. Esses companheiros foram e estão sendo cobrados. Mas é preciso ter em mente que 800 mil militantes não são um barquinho, são um transatlântico. Sempre vai haver um problema. Temos que ser adultos o suficiente para cobrar ¿ aponta ele. ¿ Votar em Lula neste momento é uma questão de se posicionar.

É assim também com Almimar Bernardo da Silva, 39 anos. Quem o vê puxando a carroça cheia de papel usado pelas ruas de Recife pode pensar que seu voto está na conta do Bolsa Família. Mas ele não procurou o benefício, porque tem renda mensal de R$800, depois de ¿ralar muito¿ vendendo material para reciclagem. Nascido no Rio Grande do Norte e ex-morador do Rio de Janeiro, Silva teve seu último emprego formal há quatro anos e afirma que votou sempre em Lula.

¿ Pobre que não vota em Lula não se considera pobre. Lula é o candidato dos pobres, foi um migrante como eu, fugiu da seca ¿ argumenta. ¿ Ele sabe o que o pobre sofre, ajuda muito esse pessoal que mora na beira de rio, em cima de barreira.

Eleitor de Cristovam Buarque (PDT) no primeiro turno, o professor Luiz Flávio de Carvalho Costa não tem tanto entusiasmo, mas vota assim mesmo. E se melhor razão não tivesse, seria para não eleger o oponente.

¿ Não voto no PSDB e no Alckmin. O segundo motivo é que a corrupção não foi inventada pelo PT. Obviamente, tenho uma posição extremamente crítica: se for evitar a corrupção do PT, vou cair na do PSDB. Em terceiro lugar, vejo positivamente o que Lula fez pela educação. Foi melhor do que Fernando Henrique ¿ diz ele, avisando que nunca foi eleitor convicto do PT. ¿ Meu grande candidato sempre foi Leonel Brizola. Acabei votando em Lula no segundo turno de 1989, contra Collor, e quando Brizola foi vice de Lula.

O eletricista pernambucano Ronaldo Morais, de 56 anos, não vive esses dilemas. Sempre votou em Lula e conta que em sua casa ¿todo mundo está fechado¿ com o petista.

¿ Arranjar trabalho hoje é muito mais fácil e, com a inflação baixa, dá para viver. Antes era um sufoco. A gente vê que Lula trabalha com honestidade. Ele fez muita coisa e acho que no próximo mandato tem tudo para melhorar mais ainda.

O otimismo é o mesmo numa casa de taipa em Teresina. Nela, mora a dona de casa Maria dos Milagres Félix, de 39 anos, que vota em Lula porque ele ¿tem cara de pobre e entende os pobres¿. Com o marido desempregado, Maria faz jus ao nome composto, garantindo a sobrevivência dos oito filhos, todos menores de 12 anos, com os R$85 mensais do Bolsa Família.

¿ Voto no Lula porque tem a cara de pobre e é uma pessoa como nós. Eu voto nele não por casa do Bolsa Família, mas porque gosto dele, acho que ele merece continuar ¿ elogia ela, contando que os filhos matam a fome com cajus, sucos e lanches fornecidos por um convento na zona sul de Teresina.

A vida está um pouco menos difícil para José Alves do Prado, 57 anos, motorista de táxi em Recife. Eleitor de Lula desde 1989, ele mantém a informação em dia ¿ lê diariamente um jornal e sintoniza o rádio do carro em emissoras de notícias. Sabe das denúncias, mas diz não ter se decepcionado com o presidente. Mês passado, ele trocou o Corsa com dois anos de uso por um carro novo. José Alves lembra que o preço das coisas não sobe como antigamente, mas ainda assim tem um par de queixas.

¿ Lula disse que ia acabar com a CPMF, mas transformou um imposto que era provisório em definitivo. Também prometeu criar dez milhões de empregos, e não conseguiu cumprir ¿ reclama.