Título: ÉTICA DO TRÂNSITO¿ PREVALECE NA ELEIÇÃO
Autor: Fellipe Awi
Fonte: O Globo, 29/10/2006, O País, p. 18
Especialistas avaliam que Lula e Alckmin cobram um do outro conceitos éticos que não aceitam para si mesmos
CAXAMBU (MG). Se os institutos de pesquisa estiverem certos, as eleições presidenciais de 2006 ganharão um capítulo à parte em estudos sobre a cabeça do eleitor brasileiro. A pedido do GLOBO, intelectuais tentaram explicar como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao fim da campanha como franco favorito à reeleição, mesmo massacrado há cerca de um ano e meio com denúncias, tantas vezes comprovadas, de corrupção em seu governo. Como a oposição não deixou de lembrar isso um só instante, popularizando até perguntas como ¿Lula, onde está o dinheiro?¿, o ponto de partida da discussão só pode ser a suspeita de que a defesa da ética na política perdeu a eficácia.
É isso também, mas é bem mais do que isso, apressam-se a explicar sociólogos, antropólogos e cientistas políticos que estiveram no 30º Encontro Anual da Anpocs, esta semana, em Caxambu. Para o sociólogo Emil Sobottka, da PUC-RS, esta eleição representa a consagração do voto pragmático em relação ao chamado voto não-racional, que durante muito tempo foi encarado como a opção mais comum do eleitorado brasileiro.
¿ O sujeito vota porque o político o beneficia. No fundo, ele pensa que isso compensa alguma desonestidade. E o PT soube explorar muito bem isso, porque a maioria dos eleitores não vê o Bolsa Família, por exemplo, como uma ação do Estado e sim do Lula. O (Geraldo) Alckmin, por sua vez, não conseguiu mostrar em que beneficiaria as classes baixa e média ¿ afirma Sobottka.
Mensalão e CPIs barradas em SP
Ao mesmo tempo, diz ele, ficou claro nesta eleição que os dois candidatos cobram do outro um conceito de ética que não aceitam para si mesmos, ¿como fazemos no trânsito¿.
¿ Neste ponto, os dois têm rabo preso. O Lula com todas estas acusações graves que vêm desde o mensalão e o Alckmin com as 70 CPIs engavetadas e a verba publicitária do governo de São Paulo. O eleitor entende isso ¿ diz Sobottka.
Entende também que todo político é corrupto, afirma o cientista político Yan Carreirão (Universidade Federal de Santa Catarina), seguindo a linha de raciocínio de Sobottka. Para ele, essa percepção generalizada iguala, a princípio, qualquer candidato, por diferentes que sejam a ideologia e as propostas:
¿ Quanto mais o eleitor for beneficiado por uma política do governo, menos ele pondera sobre questões éticas. O raciocínio mais crítico fica centrado em quem precisa menos do Estado ¿ afirma Carreirão, que compara este modelo de voto com a tese do ¿rouba, mas faz¿, consagrada até por políticos cujo eleitorado se situa nas classes média e alta.
Corrupção ¿mais perdoável¿
Ele só faz uma distinção importante que acaba sendo favorável ao presidente Lula em sua tentativa de reeleição.
¿ Existe a percepção de que o mensalão e o dossiê não foram tanto para botar dinheiro no bolso dos políticos. As denúncias apontam que os recursos foram usados para fazer maioria, é a corrupção de um Poder sobre o outro. Embora isto possa ser ainda mais grave que o roubo para si, boa parte do eleitorado entende como ¿mais perdoável¿, ainda mais se acredita que o Lula não está diretamente envolvido.
A maneira como a oposição usou o discurso da ética também é posta em xeque. O diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, Gabriel Cohn, afirma que PSDB e PFL adotaram um tipo de ¿cruzada ética¿ que apenas desqualificou as instituições democráticas.
¿ Foi um briga estéril para mostrar quem é bonzinho ou malvado. Claro que a corrupção tem que ser combatida, mas esse é o lado criminal da política. Ou também não é um desvio ético ser eleito para um mandato e abdicar para assumir outro cargo, como fez o prefeito de São Paulo (José Serra) recentemente? É um desrespeito ao voto popular.
Cohn diz que a estratégia da oposição deixou o eleitor confuso, uma vez que a situação do PT foi de um extremo a outro. Se antes o partido se apresentava como o detentor do monopólio da ética, em seguida a oposição vendeu a idéia de que toda a falta de ética estava concentrada no governo petista:
¿ Quando a pessoa ouve políticos martelando a mesma coisa todo o tempo, desconfia logo: ¿Aí tem armação¿. A oposição subestimou essa capacidade do eleitor ¿ diz Cohn, que preside a Anpocs.
Também comunga dessa tese a socióloga Maria Alice Rezende, do Iuperj. Para ela, parte do eleitorado ficou confusa com a mudança drástica da imagem do PT. É como se não tivesse ficado muito claro quem é quem nesta eleição.
¿ O PSDB tentou fazer a mesma coisa que o PT sempre fez. Houve uma inversão de papéis e, desta vez, os petistas é que estavam acuados. Isso criou um ruído de comunicação e uma certa área nublada na cabeça do eleitor ¿ acredita.
Para o professor de antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Ruben Oliven, o discurso de defesa da ética foi mais eficiente até certo momento da campanha. No início, diz ele, militantes petistas mais intelectualizados votaram em candidatos como Heloísa Helena (PSOL) e Cristovam Buarque (PDT) para evitar que, depois de tantos escândalos de corrupção, o presidente Lula fosse reeleito ainda no primeiro turno, como forma de externar sua desilusão. Quando a disputa ficou polarizada com o candidato tucano, Geraldo Alckmin, boa parte destes eleitores vai voltar a votar no PT.
¿ A questão ética é importantíssima, mas se reflete mais na classe média que nas camadas populares. Parte desta classe está convencida de que a ética já não sobrevive entre os políticos, já está acostumada à corrupção. Por isso, vota em função de perceber ganhos como o Bolsa Família ou por se sentir mais sintonizada com um candidato do que com o outro ¿ conclui Oliven.