Título: OS PODERES ESTÃO SEQÜESTRADOS POR CHÁVEZ¿
Autor: Janaina Figueiredo
Fonte: O Globo, 29/10/2006, O Mundo, p. 55
Adversário de líder venezuelano na disputa pela Presidência diz que quer governar para todos e afastar país do `eixo do mal¿
BUENOS AIRES. Depois de muitas idas e vindas, ele foi o escolhido pelos opositores venezuelanos para disputar a Presidência nas eleições de dezembro. Seu adversário será o poderoso presidente Hugo Chávez. Aos 53 anos, Manuel Rosales, governador do estado de Zulia, um dos mais ricos da Venezuela, está prestes a enfrentar o maior desafio de sua carreira. Apesar da fortaleza de seu rival, ele está confiante. ¿A grande maioria dos venezuelanos quer uma mudança e essa mudança vai acontecer no dia 3 de dezembro¿, afirmou Rosales em entrevista exclusiva ao GLOBO, por telefone. Eleito governador em 2000 e reeleito em 2004, ele falou sobre o que chamou de falências de Chávez e seu programa de governo.
As pesquisas indicam uma clara vitória de Chávez. Vai ser uma disputa difícil?
MANUEL ROSALES: Sim, mas interessante.
Os setores mais humildes continuam sendo, na grande maioria, seguidores de Chávez. Qual sua estratégia para conquistar o voto dos mais pobres?
ROSALES: As coisas mudaram muito nos últimos tempos. Oito anos de mentiras frustraram uma grande parte dos setores populares. Alguns foram beneficiados pelos programas sociais e são conformistas. Mas a grande maioria não aceita as esmolas do governo e exige um sistema mais equilibrado, um emprego formal estável, uma boa casa, um bom sistema de saúde e educação. Este governo fracassou em tudo isso. Chávez desperdiçou mais de US$400 bilhões em corrupção e entregando nosso dinheiro a outros países.
Como Cuba?
ROSALES: Cuba, Bolívia, Argentina. Vendendo gasolina barata nos EUA, construindo hospitais e escolas em outros países, quando na Venezuela está tudo caindo aos pedaços. O programa habitacional foi um dos grandes fracassos do governo. Em oito anos de gestão construíram apenas 145 mil casas.
O Ministério de Chávez é muito questionado, mas o presidente continua sendo o político mais popular do país...
ROSALES: Bom, isso porque ele não tinha adversário. Passou oito anos correndo sozinho. Além disso, acusa seus ministros de todos os desastres como se não fosse responsável. Mas o povo entende que o responsável é ele, que passa grande parte do tempo passeando e entregando nossas riquezas a outros países, falando o que Fidel manda falar e pretendendo instalar na Venezuela um sistema similar ao cubano. As pessoas estão acordando. A grande maioria dos venezuelanos quer uma mudança, o que acontecerá em dezembro.
A escolha de um candidato único da oposição foi complicada e provocou fissuras entre os opositores. Qual é o grau de adesão à sua candidatura?
ROSALES: Não houve divisão. Assumimos o compromisso de escolher um candidato único e hoje marchamos unidos em busca da vitória. Existe um candidato da oposição, o candidato Benjamín Rausseo, que ainda mantém sua decisão de concorrer à Presidência, mas tenho certeza que no final estaremos juntos.
As pesquisas mais recentes mostram uma ampla vantagem de Chávez...
ROSALES: Todos os analistas coincidem em dizer que um dos candidatos está estagnado há bastante tempo e outro está crescendo. Isso significa, acaba de acontecer no Equador, que as coisas estão mudando. No Equador, o candidato que venceu tinha uma diferença de 12 pontos percentuais em relação ao segundo colocado e veja o que aconteceu. A questão foi que (Rafael) Correa estava caindo e o outro candidato (Álvaro Noboa) estava crescendo. O importante das pesquisas não são os números e sim a tendência.
O senhor considera que tem chances de vencer a eleição?
ROSALES: Claro que sim, vamos vencer a eleição.
Em 2002, a oposição protagonizou um golpe contra Chávez e uma greve geral que provocou grave dano à economia. A oposição conseguiu reverter a imagem negativa?
ROSALES: Em primeiro lugar, em abril de 2002 houve um vazio de poder, já que na época o ministro da Defesa, Lucas Rincón, anunciou a renúncia (do presidente Chávez). Isso provocou um grande caos.
Mas o presidente designado na época, Pedro Carmona, começou sua gestão dissolvendo o Congresso...
ROSALES: Você deve começar a assistir a esse filme muito anos antes de 2002. Temos de falar do golpe de Estado comandado por Chávez em 1992. Houve mortos, feridos, crimes terríveis, foram violadas todas as normas da Constituição. Isso é muito mais grave do que ocorreu em abril de 2002. Se depois de tudo isso Chávez foi perdoado...
A oposição conseguiu superar a crise posterior a 2002?
ROSALES: Estamos no caminho da democracia, o que aconteceu, aconteceu. Os que fracassaram no passado não retornarão. Queremos um governo novo, fresco, uma democracia com liberdade e justiça social. Acreditamos na construção de um país que avance em direção ao progresso, afastado da violência, da divisão e do modelo castro-cubano, que Chávez pretende instalar. Um governo afastado do terrorismo e do eixo do mal.
Como seria seu relacionamento com países como o Brasil, que nos últimos anos foram importantes aliados de Chávez?
ROSALES: Teríamos um relacionamento de muito respeito. Temos muito que aprender do Brasil, pois é uma das potências mundiais. Mas esse relacionamento deve estar marcado pelo respeito. Respeito as idéias do presidente Lula e sua proximidade a Chávez, mas vejo uma grande diferença entre ambos. Lula é um presidente democrático. Chávez é um ditador.
O senhor seria aliado de países como Cuba e Bolívia?
ROSALES: Nosso relacionamento com os demais países deverá respeitar a soberania e nossos interesses econômicos, culturais e políticos. Nossos tratados dependerão do interesse coletivo de todos. Se a soberania for respeitada, tudo bem.
Quais seriam as principais metas de seu governo?
ROSALES: Em matéria política, quero ser o presidente de todos os venezuelanos, acabar com a divisão, a perseguição, os presos políticos e unir a Venezuela. Temos de respeitar as idéias de todos. Na economia, vamos criar uma aliança com os setores populares e a classe média, queremos convocar os empresários e investidores estrangeiros para que retornem ao país. Queremos gerar confiança. Vamos respeitar a propriedade privada e garantir a segurança jurídica. Hoje isso não existe, os poderes estão seqüestrados pelo presidente.