Título: SOB PRESSÃO, CHINA PROÍBE VENDA DE ÓRGÃOS HUMANOS
Autor: Gilberto Scofield Jr.
Fonte: O Globo, 29/10/2006, O Mundo, p. 56

Condenados à morte são principal fonte para transplantes

PEQUIM. Desde 1º de julho, o comércio de órgãos humanos foi tornado ilegal pelo governo da China, numa tentativa de melhorar sua imagem junto à comunidade internacional, que acusa o país de usar, sem autorização, órgãos de prisioneiros condenados à morte como fonte de transplantes. Mas o comércio continua, estimulando uma ativa indústria de execuções penais e de transplantes, segundo a entidade de defesa de direitos humanos Anistia Internacional.

AI acusa governo chinês de fazer vista grossa

No relatório que analisa os abusos contra direitos humanos na China, a instituição acusa o governo chinês de fazer vista grossa para o problema, o que foi confirmado por uma reportagem da BBC proibida no país. Um repórter da rede de notícias inglesa se faz passar por um paciente em busca de um fígado para seu pai e visita o Hospital Central nº 1 de Tianjin. Os funcionários do hospital dizem que, por 75 mil euros (R$203 mil), conseguem o fígado em três semanas, e que ele será doado por um prisioneiro prestes a ser executado.

O governo chinês diz que os presos autorizam voluntariamente a doação antes da execução, mas os pedidos de entrevista do GLOBO foram recusados sob alegação de que todos os dados sobre doação de órgãos estão no site do Ministério da Saúde na internet, o que não é verdade. A China é o país que mais executa prisioneiros no mundo, uma média de 1.700 por ano, segundo o próprio governo. Mas entidades de defesa de direitos humanos dizem que este número é bem maior.

De acordo com a Associação de Medicina da China, o país fez 12 mil transplantes ano passado e é o segundo maior do mundo nesse procedimento cirúrgico, atrás apenas dos EUA. Segundo Stephen Wigmore, presidente do comitê de ética da Sociedade Britânica de Transplantes (uma associação que reúne médicos e pesquisadores do assunto na Inglaterra), a China atingiu tal posição usando órgãos de presos.

Wigmore afirmou que, embora os órgãos fornecidos sejam os de prisioneiros mortos, a custos baixíssimos, os transplantes envolvem o pagamento de dinheiro às autoridades carcerárias por todo o país.

¿ Há um relacionamento próximo entre as unidades de transplantes e as autoridades que regulam as execuções. Esta relação é antiética ¿ afirmou Wigmore.

O porta-voz do Ministério da Saúde da China, Mao Qun¿an, nega a prática e afirma que doadores voluntários são a fonte principal das cirurgias. ¿Apenas uma pequena fração dos condenados por crimes sérios e que estão esperando a pena de morte costuma doar órgãos. Mesmo assim, com a sua autorização e da família¿, diz Mao, num artigo da agência de notícias estatal Xinhua.

Ele acusa a mídia estrangeira de plantar notícias falsas e informar errado o público, sem explicar a razão de tal comportamento.

Pela nova lei, doadores poderão voltar atrás

Pela legislação que entrou em vigor em julho, doadores podem voltar atrás no processo de doação até mesmo no leito de morte e apenas hospitais pré-qualificados podem fazer cirurgias de transplante. A venda de órgãos será terminantemente proibida, sem especificar a penalidade para quem infringir a lei. Segundo o governo, cerca de dois milhões de chineses precisam de transplantes todos os anos.