Título: Bid: estrutura das dívidas deve mudar
Autor: Eliane Oliveira e Monica Tavares
Fonte: O Globo, 30/10/2006, Economia, p. 37

WASHINGTON. Reduzir a dívida pública da América Latina a zero ajudaria a eliminar totalmente a vulnerabilidade da região. Isso, no entanto, não é viável a curto prazo e tampouco é desejável economicamente ¿ conclui um informe do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que será divulgado hoje. ¿O que faz com que a região seja propensa às crises é mais a estrutura, ou seja, a qualidade da dívida emitida pelos países de América Latina e Caribe, e a inestabilidade concomitante, do que seu volume¿, diz o estudo ¿Viver com Dívida¿.

Ao antecipar os resultados à imprensa, o presidente do BID, Luis Alberto Moreno, destacou que a dívida latino-americana é, em média, 45% de seu Produto Interno Bruto (PIB, soma das riquezas produzidas), e isso é resultado tanto de boas políticas como da abundância de capital no mercado mundial. Mas esse segundo fator, advertiu, pode ser alterado de uma hora para outra.

Para o BID o mais importante é que os governos continuem mudando a estrutura de sua dívida de moeda estrangeira para moeda nacional. Outro conselho: ¿É necessário controlar o fluxo de nova dívida, ou seja, os déficits orçamentários¿, para garantir, por exemplo, que a liderança política não abuse da capacidade de se endividar. Segundo o banco, ¿políticos míopes¿ e o fato de que ¿as futuras gerações não estão representadas¿ no processo de tomada de decisões produzem ¿uma tendência ao excesso de consumo¿, e, em conseqüência, ao ¿endividamento excessivo¿.

A dívida pública do Brasil é maior do que aparenta, ou do que o governo informa, diz o BID. Em vez de 51,6% do PIB, soma 74,8%. O índice usado no Brasil é a dívida líquida, e o maior, a bruta. A opção de enfatizar o primeiro, mostra o BID, vem de governos anteriores. O banco explica a diferença: estados e municípios fizeram grandes dívidas que foram garantidas pela União. No país, tais dívidas são deixadas fora do débito federal.