Título: GARCIA: MEDIDAS PODEM INCLUIR VALORIZAÇÃO DO DÓLAR
Autor: Henrique Gomes Batista
Fonte: O Globo, 31/10/2006, O País, p. 9

Presidente do PT diz que não há ministério inegociável e que o próximo governo, de `esquerda-centro¿, será de coalizão

BRASÍLIA. O presidente do PT e coordenador da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Garcia, defendeu ontem, em entrevista coletiva, a atual política econômica, disse que não há disputa entre monetaristas e desenvolvimentistas dentro do governo, mas antecipou que poderão vir novidades no segundo mandato: a rediscussão da política cambial, com medidas que valorizem o dólar sem artificialismos ou intervenções.

¿ Serão adotadas medidas já conhecidas, como prosseguimento da queda da taxa de juros, expansão do comércio exterior (não só mais exportação, mas também mais importações que signifiquem o aumento da taxa de investimento no país) e recolocar o problema cambial no Brasil, talvez provocando, sem artificialismo, uma melhoria da situação cambial, portanto uma certa valorização do dólar em relação ao real.

Garcia defendeu o legado do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e evitou emitir opinião sobre o comentário do ministro de relações institucionais, Tarso Genro, de que a era Palocci ¿ em referência ao excesso de cautela em prol da estabilidade econômica e do rigor fiscal ¿ acabou, como disse no domingo, logo após a confirmação da vitória de Lula.

¿ Vou dar a minha opinião geral sobre o tema (economia), não quero entrar na fulanização. A fulanização faz a alegria de alguns colunistas mas não do país. O ministro Palocci teve papel importante no governo, o Brasil deve muito ao ministro Palocci. Mas essa política (de estabilização) teve seu prazo e quem começou a alterá-la foi o próprio ministro Palocci. Ele saiu do governo não por isso, mas por outros temas. O ministro (Guido) Mantega apenas deu continuidade.

O presidente interino do PT e elaborador do programa de governo de Lula reafirmou que a reforma da Previdência não está nos planos deste governo.

¿ Os temas da Previdência são importantes, mas a reforma não é nossa agenda. Os problemas da Previdência podem ser enfrentados com dois mecanismos: crescimento econômico com aumento do número de trabalhadores formais e progresso de medidas administrativas pelas quais a Previdência já está passando (como o recadastramento dos aposentados).

Garcia tratou das alianças políticas do segundo mandato de Lula e disse que não há ministério inegociável pelo PT. Disse que este governo será de ¿esquerda-centro¿:

¿ Não há nenhum ministério inegociável, lembrando que a definição do Ministério cabe ao presidente, não ao PT. Mas teremos um governo de coalizão.

Ele não deu dicas de seu futuro e falou que nem sua situação foi tratada com o presidente Lula, que é quem decidirá a nova equipe. Ao falar de alianças, Marco Aurélio disse que setores do PDT e do PV teriam se aproximado do presidente no segundo turno e que podem ser procurados pelo presidente para a elaboração do novo governo.

¿ Para as questões de reforma ministerial vale a máxima de Noel Rosa: ¿Quem acha muito vive se perdendo¿.

Ele defendeu a criação de uma frente de partidos de esquerda no país, a exemplo do que existe no Uruguai e no Chile.

¿ Temos que repensar o PT, o que significa ser partido de esquerda. Um tema acho importante: a necessidade de construir mecanismos sólidos de aliança com aliados com quem temos mais afinidade no Brasil. Pode ser uma política de frente. A aliança conjuntural pode ser um mecanismo mais duradouro de entendimento, mas não estou falando de fusão. Pode ser uma frente de esquerda que se negocie com outros partidos mais ao centro. É uma idéia pessoal, vou levar ao partido.

Para ele, todos os partidos, após o período pós-eleitoral, terão de passar por um processo de reflexão.

¿ Nenhum partido está isento da responsabilidade de repensar sua identidade e seu futuro. Isso vale para a oposição.

Sobre o PT, Garcia afirmou que há necessidade de o partido redimensionar a força regional, levando em consideração o Norte e Nordeste, onde o presidente teve vitória esmagadora sobre o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, no segundo turno.