Título: PF VOLTA A PRENDER FISCAIS DO IBAMA NO RIO
Autor: Antônio Werneck
Fonte: O Globo, 02/11/2006, Rio, p. 24

Um dos acusados de corrupção tenta se matar com tiro no peito ao ver a casa cercada por agentes federais

Vinte e cinco pessoas, 22 delas fiscais do Ibama, foram presas ontem pela Polícia Federal na segunda etapa da Operação Euterpe, desencadeada para desarticular no Rio uma quadrilha que negociava por até R$90 mil laudos técnicos ambientais. Ao todo, 122 policiais federais foram mobilizados para cumprir 29 mandados de prisão preventiva (30 dias) e um de busca e apreensão. Quatro fiscais conseguiram fugir e estão sendo procurados. Logo no início da operação, um dos fiscais, Ivilson Pedro Muller, ao perceber que sua casa estava cercada pela PF, pegou um revólver calibre 38 e atirou contra o próprio peito. Muller foi socorrido pelos policiais e está internado, sem risco de morte, no Hospital Pedro II, em Santa Cruz.

É a segunda vez que policiais prendem fiscais do Ibama no Rio acusados de corrupção, sem revelar os nomes dos empresários que pagariam propina. Os presos são acusados de peculato, corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, pesca ilegal e crime ambiental.

Ministra e presidente do Ibama são avisados pela PF

A operação começou por volta das 5h, quando os policiais deixaram o pátio da PF. Pouco antes, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o presidente do Ibama, Marcus Barros, foram avisados da operação pelo diretor-geral da PF, Paulo Lacerda. Com exceção de dois fiscais, todos os outros presos já haviam sido alvo da primeira fase da Operação Euterpe, realizada em agosto deste ano.

Como quatro fiscais conseguiram fugir, o delegado Delci Teixeira, superintendente da PF no Rio, informou que investiga se houve vazamento de informação de policiais envolvidos na operação. Ele abriu inquérito para apurar todas as circunstâncias em que o fiscal acabou ferido com um tiro:

¿ Mandei instaurar um inquérito policial. Todos os policiais que participaram do cerco já estão sendo ouvidos, assim como vizinhos e testemunhas. Queremos saber se os policiais poderiam fazer alguma coisa para evitar a tentativa de suicídio do fiscal.

Segundo os policiais, Muller, de 55 anos, estava em sua casa, na Rua Vila Nelita 10, em Pedra de Guaratiba, quando atendeu ao chamado para abrir a porta. O fiscal apareceu na janela e pediu que esperassem um pouco. Em seguida, entrou em seu quarto. Nesse momento, os policiais ouviram um tiro. Ao entrar na casa, os policiais encontraram o fiscal caído em sua própria cama, com a arma ao lado e o peito sangrando. O fiscal do Ibama já havia sido preso em agosto deste ano na primeira fase da Operação Euterpe.

Segundo a Polícia Federal, pelo menos seis mil processos do Ibama ¿ liberados nos últimos dois anos no Rio, na Região dos Lagos, na Baixada e em Angra (principalmente para empreendimentos imobiliários) ¿ estão passando por auditoria e análise, já que existe a suspeita que eles possam ter sido fraudados. Além dos funcionários do Ibama, foram presos dois consultores de empresas de construção civil e um comerciante de pescado.

Na decisão que fundamentou as prisões, a Justiça e o Ministério Público Federal (que ofereceu denúncia contra os envolvidos) disseram que que ficou constatado, durante as investigações, que havia uma rede de servidores do Ibama envolvidos direta ou indiretamente em recebimento de propinas, cancelamento de autos de infração já lavrados e sumiço de documentos. Os policiais também encontraram indícios de que o grupo de fiscais tinha ¿ramificação junto aos órgãos ambientais das esferas estadual e municipais¿.

Propinas podiam chegar a R$90 mil

O principal esquema de extorsão, segundo os policiais, funcionava a partir de dois consultores de empresas da construção civil: Marcos de Oliveira Maia, da Prime Engenharia, e Carlos José Ruffato Favoreto, do Grupo Pasquale Mauro. Eles atuariam como intermediários entre empresários e funcionários do Ibama. As propinas variavam entre R$1.500 e R$90 mil (preço cobrado, por exemplo, para que os funcionários do Ibama autorizassem a construção de condomínios em áreas de preservação ambiental).

Um dos envolvidos, Marcos Maia ¿ preso como na primeira vez no condomínio Grotão, um dos mais luxuosos de Itaipu, em Niterói ¿, chegou a ser flagrado por agentes federais negociando com os fiscais Alexandre de Albuquerque Braile, Alípio Villanova Nascimento e Leonardo Edward Rose (presos em agosto e agora novamente) a liberação da construção de um condomínio numa Área de Proteção Ambiental (APA) em Cabo Frio