Título: `O PARTIDO DEVE FAZER UMA AUTOCRÍTICA¿
Autor: Ricardo Galhardo
Fonte: O Globo, 04/11/2006, O País, p. 8

Ministro do Desenvolvimento Social propõe ao PT código de ética anticorrupção

O ministro do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Patrus Ananias, transformou o desacreditado Fome Zero no poderoso Bolsa Família, fundamental na reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Patrus rejeita o rótulo de maior cabo eleitoral de Lula, mas pretende usar o prestígio para propor ao PT a criação de um código de ética que previna escândalos. Para o ministro, egresso das comunidades de base da Igreja Católica, é hora de o PT expiar seus pecados, fazer exame de consciência e autocrítica. Provocado a se posicionar sobre o ¿fim da Era Palocci¿, Patrus destacou a importância da estabilidade econômica no sucesso do Bolsa Família.

SÃO PAULO

Quais devem ser os próximos passos do PT?

PATRUS ANANIAS: O PT deve fazer uma saudável autocrítica e um bom exame de consciência. Não no sentido de buscar culpados; eles serão julgados pelas instituições. É mais importante criar mecanismos que impeçam que ocorra de novo o que ocorreu.

Como evitar escândalos?

PATRUS: Vou trabalhar para que o PT tenha um código de ética partidária além das leis do país, com princípios de procedimento ligados aos compromissos históricos que nós temos. É importante uma relação mais próxima entre as direções e as bases. Houve distanciamento com a sociedade em geral. Defendo que façamos no PT um orçamento participativo. Todos os gastos devem ser discutidos. O dinheiro deve ser aplicado com absoluta transparência.

Qual é a sua posição na polêmica criada sobre o fim da era Palocci?

PATRUS: Os investimentos na área social devem sempre ser priorizados. Não há maior investimento que o povo. Mas tem que haver bom entendimento. A estabilidade é importante. A inflação baixa também. A inflação é cruel principalmente com os pobres, e a estabilidade é uma conquista fundamental. Os programas sociais como o Bolsa Família estão mostrando resultados porque a economia está sob controle. Estivéssemos nós com inflação alta é claro que o impacto dos preços não permitiria que as pessoas estivessem como estão. Estamos garantindo o que chamo de sustentabilidade social com crescimento econômico. São duas pontas que se encontram: desenvolvimento econômico e investimento social.

O senhor e o Bolsa Família foram os grandes cabos eleitorais de Lula nesta eleição?

PATRUS: Não concordo. Participamos, tivemos papel importante, mas dentro de um conjunto de ações. O maior cabo eleitoral do presidente Lula foi ele mesmo.

E a importância do Bolsa Família na vitória?

PATRUS: Foi importante, eu diria até que fundamental, na medida em que cumprimos, o presidente cumpriu, os compromissos que assumimos com o povo brasileiro, especialmente os mais pobres. Mas o Bolsa Família não é isolado. A grande conquista que eu diria histórica, civilizatória, é que estamos consolidando no Brasil uma rede nacional de proteção e promoção social. Colocamos a questão dos pobres no campo das políticas públicas saindo do campo do clientelismo, do assistencialismo, da distribuição de cestas básicas em períodos eleitorais. São políticas públicas republicanas.

Qual o futuro do Bolsa Família no segundo mandato?

PATRUS: O Bolsa Família está se integrando ao Peti (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil), que tem linha de transferência de renda. Todos os recursos estão sendo transferidos para o que nós chamamos de Jornada Ampliada, em parceria com as prefeituras. As famílias atendidas pelo Bolsa Família têm prioridade no Luz para Todos e em alguns estados adotamos a Tarifa Solidária (descontos nas contas de luz). Vamos ampliar a integração com o Economia Solidária, do Ministério do Trabalho, aumentando a participação das famílias nos programas de microcrédito.

E as portas de saída?

PATRUS: Estamos integrando o Bolsa Família com os Centros de Referência de Assistência Social. São mais de 2.200 unidades, espaços de recuperação da auto-estima das famílias com inclusão digital, qualificação profissional, alfabetização, ações de geração de trabalho e renda. Isso é feito com os parceiros do Fome Zero, prefeituras, Banco do Brasil, empresas. Estamos integrando o Bolsa Família com o Pronaf (Programa Nacional de Agricultura Familiar). O Pronaf terá grande interface em nossos programas de aquisição de alimentos da agricultura familiar. Com essas ações, estamos conseguindo portas de saída do Bolsa Família.

Isso é suficiente?

PATRUS: Ao contrário do que muitos falam, as pessoas não ficam mal acostumadas, não. O aceso às necessidades básicas aumenta a auto-estima e elas vão querendo outras conquistas na vida. Várias famílias do Nordeste já devolveram o cartão. (Ricardo Galhardo)