Título: ORTEGA LIDERA APURAÇÃO E RUMA PARA A VITÓRIA
Autor: Renato Galeno
Fonte: O Globo, 07/11/2006, O Mundo, p. 29

Milhares de sandinistas saem às ruas de Manágua para festejar antecipadamente provável eleição de ex-presidente

MANÁGUA. O desfile de bandeiras rubro-negras, os gritos de alegria e os fogos de artifício pareciam fazer parte de alguma comemoração de título do Flamengo. Mas um olhar mais atento podia perceber um grande número de bonés cor-de-rosa e acordes de uma curiosa versão de uma música de John Lennon. Até mesmo a alegria demonstrada pelos ¿torcedores¿ parecia mais própria de um time que não estivesse mais acostumado com vitórias, mesmo que esporádicas. O mar de gente que tomou várias ruas de Manágua era formado por sandinistas, que festejaram toda a madrugada a provável vitória de Daniel Ortega na disputa presidencial da Nicarágua. Segundo a contagem oficial dos votos, que já chegava a mais de 40% do total ontem à tarde, Ortega seria eleito.

Com essa apuração, Ortega tinha 40,1% dos votos. Em segundo lugar, vinha Eduardo Montealegre, da Aliança Liberal Nicaragüense (ALN), com 32,72%, seguido por José Rizo, do Partido Liberal Constitucionalista (PLC), com 20,33%. Em quarto, estava Edmundo Jarquín, do Movimento de Renovação Sandinista (MRS), uma dissidência da FSLN (Frente Sandinista de Libertação Nacional), com 7,5%.

A FSLN divulgou um comunicado à noite, lido por sua chefe de campanha, e mulher de Ortega, Rosario Murillo:

¿ Estamos esperando os resultados finais para fazer as declarações apropriadas sobre este novo momento de nossa história ¿ disse a mulher de Ortega, o líder que deixou o governo em 1990.

Ortega aparece ao lado de ex-presidente dos EUA

Antes mesmo da divulgação dos primeiros resultados oficiais, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas de Manágua para comemorar a provável vitória sandinista, depois que alguns dados da apuração foram vazados. O mesmo se repetiu em todo o país. A cada nova divulgação de resultados, mais fogos de artifício eram ouvidos em vários pontos da capital, onde não houve violência.

Diferentemente do radical líder guerrilheiro das décadas de 1970 e 1980, Daniel Ortega afirmou ter se convertido ao catolicismo e citou Deus em todos os seus discursos. Sua campanha pregava reconciliação nacional, e o vice em sua chapa é um ex-líder do contras (que pegaram em armas contra o governo revolucionário de Ortega): Jaime Carazo, que horas depois da votação já dizia em entrevistas que seria o responsável pela área econômica do próximo governo. Ortega também fez um pacto com o ex-presidente Arnoldo Alemán, do PLC, que deu para a FSLN o controle de instituições como a Corte Suprema e a Controladoria Geral.

Ortega não fez qualquer declaração ontem, e esteve reunido com a cúpula da FSLN todo o dia. Sua primeira aparição pública foi à noite, ao lado do ex-presidente americano Jimmy Carter, que está na Nicarágua como observador da Fundação Carter.

¿ Se Ortega ganhar as eleições, pode ser uma boa oportunidade para a Nicarágua cicatrizar as diferenças que tem com os EUA ¿ disse Carter.

Partidários que comemoravam a provável vitória de seu candidato brincaram diante dos jornalistas que estavam próximos à sede do Conselho Supremo Eleitoral:

¿ Confiscaremos todos os carros Hilux ¿ gritavam, referindo-se aos carros importados de luxo usados pelas autoridades do CSE, numa alusão às expropriações do governo sandinista nos anos 80, que não serão repetidas, segundo garantiu Ortega.

De acordo com as leis eleitorais nicaragüenses, modificadas recentemente de modo polêmico pela aliança FSLN-PLC, bastam 40% dos votos válidos para que um candidato vença as eleições no primeiro turno ¿ antes eram precisos 45%. Mesmo que um candidato tenha menos de 40%, porém, com mais de 35% ele é eleito, desde que tenha cinco pontos percentuais de vantagem sobre o segundo lugar.

Dessa forma, mesmo que a votação proporcional de Ortega diminua e fique abaixo dos 40%, a diferença de mais de sete pontos sobre Montealegre garantiria sua vitória. Mais do que isso: restavam para apurar 71% dos votos da zona rural do país, e, no interior, tanto a FSLN quanto o PLC têm uma forte máquina partidária.