Título: Atrasos causam apreensão nos aeroportos
Autor: Henrique Gomes Batista e Bruno Rosa
Fonte: O Globo, 10/11/2006, Economia, p. 32

Apesar de demoras consideradas normais, passageiros e autoridades temem novos problemas no tráfego aéreo

BRASÍLIA, SÃO PAULO e RIO. Os Atrasos nas decolagens no aeroporto de Brasília, considerados normais por passageiros até um mês atrás, causaram, ontem, apreensão em quem pretendia deixar a capital, por temor de um novo caos no terminal. Até autoridades do setor, como o brigadeiro José Carlos Pereira, presidente da Infraero - estatal que administra aeroportos -, ficaram apreensivos.

- Se os Atrasos persistirem, pode ser que tenhamos problemas no aeroporto de Brasília - disse Pereira.

Ontem, os vôos de Brasília para o Sul saíram a cada dez minutos e para as demais regiões do Brasil, a cada 20 minutos. O normal é um vôo a cada 5 minutos, ou menos. A questão é que, com a operação-padrão dos controladores, originada na capital, houve o cancelamento de 1.100 vôos no país.

Os Atrasos foram confirmados pelo aeroporto, denominados de "gerenciamento". E são considerados normais, devido ao pico das quintas-feiras, quando os políticos retornam para suas bases eleitorais nos estados. O Comando da Aeronáutica reconheceu os Atrasos e afirmou que isso é usual, embora tecnicamente não pudessem ser chamados de Atrasos (uma demora de 20 minutos não é computada como tal).

- Esse tipo de problema que está acontecendo em Brasília é o mesmo que ocorre em todos os aeroportos de vez em quando, Atrasos de até 20 minutos, mas que ninguém se dá conta. Só está dando conta agora, devido ao caos da semana passada, mas isso não é uma operação-padrão - afirmou o diretor técnico do Sindicato Nacional dos Trabalhadores em Proteção de Vôos, Ernandes Pereira da Silva.

A Gol contabilizou dez Atrasos ontem. A demora média chegou a uma hora e meia, decorrente dos problemas de Brasília. A TAM registrou demoras de até 30 minutos durante a manhã, a maioria em Brasília e Rio. À tarde, o Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim chegou a anunciar que poderia haver demoras, mas, com as salas de embarque vazias, não houve confusão. Segundo a Infraero, 24 trechos foram cancelados ontem e dez vôos tiveram Atrasos.

A psicóloga Maria Fernandes de Souza não teve problemas com o horário de seu vôo do Rio para o Espírito Santo:

- Não está atrasado. O aeroporto está vazio. Ainda bem que tudo não passou de um susto - afirmou.

Companhias dizem que responsabilidade é da União

O presidente do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), Marco Antônio Bologna, disse ontem que a responsabilidade pelos problemas ocorridos nos aeroportos é exclusivamente da União. Caso sejam acionadas judicialmente por pessoas que tenham se sentido lesadas, as companhias deverão recorrer para que eventuais penas recaiam sobre o governo federal.

- Nós fomos prejudicados, vítimas de um problema de força maior, e entendemos que não nos cabe pagar indenizações - disse Bologna.

Uma reunião entre dirigentes do Snea e da Anac para tratar dessa indenização está marcada para segunda-feira. O Snea pede R$4 milhões por dia de crise, que se estendeu de 27 de outubro a 3 de novembro.

- Além das perdas financeiras e operacionais, nossos funcionários foram agredidos, e os balcões, depredados. Os prejuízos à imagem das companhias não são quantificáveis - disse.

Bologna, que é presidente da TAM, cobrou uma solução rápida do governo para o impasse com controladores de vôos.

De acordo com reportagem publicada na quarta-feira pelo jornal "O Estado de S.Paulo", há denúncias de abuso de uso de passagens aéreas gratuitas dos funcionários da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que utilizaram neste ano, em média, 1,4 mil passagens por mês, retiradas sem custo para a agência junto às companhias.

A Anac esclareceu que o aumento no uso das passagens - eram 600 por mês no ano passado na entidade que precedeu a agência, o Departamento de Aviação Civil (DAC) - decorre de dois motivos. O primeiro é que a implantação da Anac em Brasília começou do zero, ou seja, a autarquia não tinha sede, equipamentos e servidores na capital. O outro motivo é que 2006 foi atípico na aviação, com fatos de grande repercussão, como a crise da Varig, o que exigiu deslocamentos extras dos funcionários.