Título: Tapa-Buracos desmorona
Autor: Bernardo Mello Franco e Alan Gripp
Fonte: O Globo, 11/11/2006, O País, p. 3

Dez meses depois, 66,2% dos trechos que passaram por obras já têm problemas

Anunciadas com alarde em janeiro, as obras da operação Tapa-buracos completaram dez meses já desmoronando. As reformas emergenciais, feitas até julho, não agüentaram nem o fim do ano eleitoral. Na maior parte dos cerca de 26 mil quilômetros de estradas federais reformadas, as chuvas e o tráfego pesado fizeram escorrer pelo ralo investimentos estimados em mais de R$400 milhões. Feitos às pressas - e sem licitação em trechos que somam 7.400 quilômetros - os remendos demonstram ter vencido o prazo de validade e, em alguns casos, chegaram a criar novos riscos à segurança dos motoristas.

Cruzamento feito pelo GLOBO com dados da lista das obras executadas pelo governo federal e da avaliação dessas estradas na Pesquisa Rodoviária 2006 da Confederação Nacional do Transporte (CNT) mostra que 66,2% dos trechos reformados têm hoje pavimentação com algum tipo de comprometimento. O percentual representa a soma das rodovias que receberam dos pesquisadores os conceitos regular, ruim e péssimo.

O programa tapou buracos em 133 trechos de estradas que cortam 24 estados e o Distrito Federal. No estudo da CNT, 33,8% destes percursos tiveram a pavimentação classificada como ótima ou boa, 54,2% como regular e 12% como ruim ou péssima. A pesquisa foi realizada entre junho e agosto.

"Viraram buracos de cabeça para baixo"

No interior de Minas Gerais, uma viagem pela BR-265, que liga Barbacena a São João del Rei, denuncia o resultado negativo da operação. Em janeiro, o Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit) destinou verba extra de R$1,04 milhão à empreiteira contratada para restaurar a rodovia. Inspeção do Tribunal de Contas da União (TCU) encontrou irregularidades na obra original, licitada em 2004 e parada por mais de um ano. Apesar do reforço no orçamento, muitos buracos reabriram e a elevação das novas camadas de asfalto criou ondulações perigosas, numa pista que já sofre com má sinalização e falta de acostamento.

- Viraram os buracos de cabeça para baixo. Em vários pontos, o asfalto novo subiu tanto que criou verdadeiros quebra-molas. Quando o caminhão está vazio, balança tanto que parece que vai desmanchar - reclama o motorista Divanildo de Melo, que teve prejuízo de R$1.200 ao destruir um pneu na estrada.

Apesar do mau estado do asfalto nos 59 quilômetros da rodovia que receberam as obras, o superintendente do Dnit em Minas, Sebastião Ferreira, diz que a operação foi satisfatória:

- Com certeza, os buracos que existiam foram tampados. Agora, com o problema das chuvas, pode ter reaparecido algum buraquinho.

O diagnóstico é diferente para quem depende da rodovia para fazer negócios. Sócio de uma pequena transportadora que atua na BR-265, Euler Cristóvão diz que a operação Tapa-buracos não passou do que chamou de quebra-galhos.

- A manutenção devia ser constante. A pista já voltou a ficar esburacada - criticou.

Numa região pontilhada por jóias do patrimônio histórico, as falhas na pavimentação também ameaçam a chegada de turistas em ônibus e carros de passeio. Os buracos estão entre as principais reclamações do livro de visitas de Tiradentes, que na alta temporada chega a triplicar a população de sete mil pessoas. O secretário municipal de Turismo, Marcelo Gomes, sonha com a reforma completa da rodovia até o fim do ano, apesar de as obras só estarem em execução num trecho de sete quilômetros. Ele acredita que a operação Tapa-buracos não passou de um paliativo.

- O trabalho foi feito às pressas e sem qualidade. Alguns remendos ficaram tão ruins que a empreiteira teve que voltar e recolocar asfalto no mesmo lugar - conta.

Apesar do rosário de lamentações, há quem veja pontos positivos na situação da rodovia. Há 22 anos à beira da pista, o borracheiro Luiz Fernandes está acostumado a dar más notícias a quem não consegue desviar dos maiores buracos. Ele mantém uma velha Caravan 85 para socorrer motoristas que furam os pneus longe do casebre em que, além de fotos de modelos seminuas, guarda martelos e câmaras de ar.

- A quantidade de buracos é impressionante. Não sei como deixam a estrada ficar desse jeito - comenta, antes de admitir o lucro com o mau estado da rodovia. - Para mim, quanto pior, melhor.

O presidente da seção de cargas da CNT, Flávio Benatti, evita criticar a operação Tapa-buracos, mas pondera que as obras foram insuficientes para recuperar a malha rodoviária:

- A operação foi importante em rodovias que estavam muito ruins, mas não resolve. Estradas que sofreram reparos já apresentam deterioração. Quando a pavimentação é refeita, o efeito é mais duradouro.

Duas rodovias na lista das obras tiveram a pavimentação classificada como péssima na pesquisa da CNT: a BR-460, que liga as cidades mineiras de Lambari e São Lourenço, e a BR-230, no Sul do Amazonas. Outras 14 estradas foram avaliadas como ruins, mesmo após as intervenções. Cinco ficam em Minas Gerais. São Paulo, que possui a malha rodoviária mais moderna do país, recebeu o conceito ótimo para os trechos da BR-101 e da BR-116 que cruzam o estado e também foram alvo da operação Tapa-buracos.

Segundo a direção do Dnit, a operação Tapa-buracos cumpriu os objetivos e melhorou as condições de tráfego em rodovias que tinham problemas de emergência. O diretor de infra-estrutura rodoviária do órgão, Hideraldo Luiz Caron, afirma que o governo mantém um programa de recuperação das estradas com orçamento de R$2 bilhões por ano:

- Obviamente, (com a operação) não passaríamos as estradas em estado péssimo e ruim para ótimo e bom. O objetivo era recuperar a trafegabilidade. Agora vamos fazer intervenções mais duradouras. O programa de recuperação recebeu R$2 bilhões em 2005 e 2006 e terá a mesma quantia em 2007.

O diretor do Dnit diz que estão sendo recuperadas rodovias importantes como a BR-101, que corta 12 estados do norte ao sul do país e tem tráfego pesado de caminhões em quase toda a extensão. Segundo Caron, também há obras em estradas que ajudam a escoar a produção do interior para cidades portuárias, como a BR-262 (Corumbá-Vitória).

Os investimentos, no entanto, são considerados tímidos pela CNT. Estudo da confederação estima que um plano de recuperação de toda a malha rodoviária brasileira custaria R$22,5 bilhões, ou seja, 11 vezes mais do que o valor aplicado este ano. Além disso, seria necessário gastar R$1 bilhão por ano apenas com a manutenção das rodovias, algo inimaginável para os investimentos previstos pelo governo federal.

* Enviado especial