Título: UMA CESTA MENOS BÁSICA
Autor: Ronaldo D'Ercole
Fonte: O Globo, 23/11/2006, Economia, p. 27

Consumo das famílias mais pobres cresceu 11% na era Lula, mas estagnou este ano

As famílias das classes D e E, com renda mensal de até R$1,4 mil, passaram a comprar 11% mais produtos como alimentos, bebidas não alcoólicas e itens de higiene e limpeza (bens não-duráveis), e também incorporaram seis novas categorias - eram 21, agora são 27 - desses produtos à sua cesta de compras ao longo dos quatro anos do mandato do presidente Lula. Nesse período, os gastos dessas famílias com não-duráveis ainda cresceu 35%. Os dados são da pesquisa "O consumidor na Era Lula", divulgada ontem pela LatinPanel, maior empresa de pesquisa de consumo em domicílio da América Latina.

Ao mesmo tempo em que confirma o avanço do consumo popular nos últimos anos, porém, a pesquisa traz um alerta: o fôlego dessa expansão pode estar no fim. Depois de crescer durante três anos seguidos, o volume médio de consumo dos brasileiros e o acesso a novos produtos parou de crescer este ano.

- Em não havendo mais melhoria de renda, não há perspectiva para a expansão do consumo no próximo ano - disse a diretora-geral da unidade brasileira da LatinPanel, Ana Cláudia Fioratti, que apontou o elevado endividamento como um dos fatores que freiam o consumo.

Até aqui, entretanto, a estabilidade econômica, combinada com os programas oficiais de distribuição de renda e o aumento da oferta de crédito, propiciaram às famílias de menor renda comprar mais e com mais qualidade. Com mais dinheiro no bolso, elas passaram a comprar itens mais práticos, como massas instantâneas, caldos para tempero, extrato de tomate, salgadinhos, maionese e sucos em pó.

Entre as famílias da classe C, com renda mensal entre R$1,4 mil e R$3,5 mil, que aumentaram em 8% os volumes de compras nos últimos quatro anos, condicionadores e cremes para cabelos foram a principal novidade.

- Houve uma sofisticação na cesta de consumo da baixa renda - observou a diretora e coordenadora do estudo da LatinPanel, Margareth Utimura.

No Rio, desejo é comprar imóvel

Embora os indicadores de expansão e melhora no padrão de consumo das classes populares tenham apresentado maior evolução entre 2003 e 2005, foi neste ano, "ano eleitoral", destaca o estudo, que houve o maior salto no padrão de consumo dos brasileiros de baixa renda: nada menos que 2,15 milhões de famílias da classe DE ascenderam na pirâmide para a classe C.

- O ano eleitoral de 2006 foi o que produziu o maior impacto no consumo da classe DE. Mais de dois milhões de famílias elevaram a renda e posse de bens, ascendendo de classe social - disse Utimura, observando que a classe C, que em 2005 reunia 33% das famílias, agora agrupa 37%.

Hoje, segundo a LatinPanel, 24% dos domicílios brasileiros pertencem à classe AB; 37%, à C; e 39%, à DE. No final do primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998, essa distribuição era de 24% (AB), 31% (C) e 42% (DE).

As famílias que permaneceram na classe DE, entretanto, estão longe de ter todas as necessidades atendidas. Segundo o estudo, se conseguissem melhorar um pouco mais a renda, 29% dessas famílias disseram que reformariam suas casas, e 23%, que iriam às compras, com as seguintes prioridades: 64% comprariam um imóvel, 33%, eletroeletrônicos, e 29% gastariam mais com alimentos.

- Isso significa que, apesar de ter melhorado o padrão de alimentação, esse segmento de consumidores ainda tem necessidades básicas e gostaria de comer ainda melhor - disse Utimura.

O estudo mostra ainda que o grande contingente de consumidores de baixa renda está concentrado nas regiões Norte e Nordeste, onde as classes DE representam 66% da população e respondem por 58% do consumo.

A LatinPanel também perguntou qual seria a prioridade das famílias, de todas as classes de consumo, caso tivessem um aumento na renda. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, 82% delas gastariam o dinheiro na compra de um imóvel. Já entre as famílias do Norte e do Nordeste, o objeto mais desejado é o automóvel (23%), e entre as paulistanas, os eletroeletrônicos (21%).

Apesar da renda apertada, a cesta de compras da auxiliar de enfermagem Maria do Carmo Martins ficou mais sofisticada nos últimos anos. Moradora do Centro do Rio, ela diz que passou a comprar biscoitos, iogurte e requeijão com mais freqüência.

- Só compro esses itens quando tem uma boa promoção. Acabo dando prioridade a produtos básicos como frango, carne e verduras. Mas sempre pesquiso: como estou sem aumento há mais de sete anos, fica complicado comprar itens mais caros.

Já a aposentada Maria Fernanda Sequeira diz que passou a consumir mais produtos práticos, como macarrão instantâneo. Na lista de compras, ganharam importância itens como leite longa vida, iogurte desnatado e produtos lights.

- Sou classe média pobre. A situação melhorou um pouco nos últimos quatro anos. Como já tenho idade, dou preferência a produtos mais saudáveis, com menos gordura.

COLABOROU Bruno Rosa