Título: Homem do PT na Petrobras gere R$700 milhões
Autor: Chico Otavio, Ricardo Galhardo e José Casado
Fonte: O Globo, 26/11/2006, O País, p. 8

Santarosa comanda Comunicação Institucional da estatal e tem ligação com Planalto: `Dutra? Quem é Dutra?¿

RIO e SÃO PAULO. Ele representa o projeto de poder do PT no comando da maior empresa estatal brasileira. Wilson Santarosa, o gerente de Comunicação Institucional da Petrobras, concentra em suas mãos um orçamento de R$700 milhões, para publicidade e patrocínios, além da decisão sobre quais projetos sociais e culturais serão patrocinados pela estatal. Há quem o considere tão ou mais forte que o presidente da empresa, Sérgio Gabrielli. Há pouco tempo, Santarosa era um personagem dos bastidores do sindicalismo petista, mas na semana passada ele passou ao centro de duas investigações: na CPI dos Sanguessugas, por uma série de telefonemas trocados com o suspeito de ter levado uma mala de dinheiro para os petistas flagrados na compra de um dossiê contra tucanos; e, no Senado, tornou-se alvo da oposição, que prepara a instalação de uma CPI das ONGs, por causa dos contratos feitos pela Petrobras com algumas entidades ligadas ao PT, ao MST e à campanha de reeleição do presidente Lula.

Com um orçamento quase duas vezes maior do que o do Ministério da Cultura, este ex-companheiro de Lula nas lutas sindicais de São Paulo ocupa um dos cargos mais cobiçados da máquina estatal. E mantém total autonomia com relação aos demais diretores. Parte dos convênios administrados pela gerência dispensa licitação. Santarosa também conduz o processo de concorrência para a escolha das agências de publicidade que cuidarão da conta da Petrobras em 2007 e 2008, algo em torno de R$500 milhões nos dois anos.

Origem no ¿novo sindicalismo¿

Wilson Santarosa, de 56 anos, nasceu em Americana (SP) e é contabilista de formação. Entrou na Petrobras (Campinas) por concurso, aos 25 anos de idade. Foi operador de refinaria. No fim dos anos 70, passou a freqüentar o sindicato local. Destacou-se como ativista da corrente ligada ao ¿novo sindicalismo¿ de Lula ¿ que em Campinas tinha Jacó Bittar como principal representante ¿ e, em 85, passou a integrar a representação local da recém-fundada Central Única dos Trabalhadores (CUT).

Dali, com pleno respaldo do grupo de Bittar, chegou (em 88) à secretaria da CUT estadual paulista. Depois (em 89) à presidência do sindicato, onde ficou até 1992. Nesse período (até 91) integrou, também, o então chamado comando nacional dos petroleiros.

Aposentou-se em 1994, aos 45 anos de idade. Em seguida, foi cuidar dos interesses dos inativos de sua empresa, sendo eleito para o Conselho de Curadores da Fundação Petrobras de Seguridade Social (Petros), na gestão de 1995 a 2000. Como conselheiro, tornou-se mais próximo de Luiz Gushiken, que (em 97) o transformou em coordenador do Instituto Cajamar ¿ espécie de ONG criada por Lula para se manter eqüidistante do PT no período. Cajamar é a origem da equipe central da campanha e do governo Lula.

Na mesma época, Santarosa foi indicado pelo PT de Campinas para compor o governo municipal, como diretor técnico-administrativo e financeiro das Centrais de Abastecimento de Campinas, a Ceasa.

Com a vitória de Lula, chegou à Petrobras, no início de 2003, em dupla condição: a de indicado diretamente pelo presidente da República, com forte influência de Gushiken ¿ junto com o presidente da estatal, o ex-senador José Eduardo Dutra (PT-SE) ¿, como gerente de Comunicação Institucional da Petrobras e como presidente do Conselho Deliberativo da Petros.

A gerência cuida das áreas de publicidade e propaganda, patrocínios, imprensa, responsabilidade social, relacionamento (que inclui a comunicação interna e multimeios), internacional, atendimento, planejamento e marcas. Sua área de ação é ampla e de forte apelo popular. Vai de catadores de lixo a sambistas, passando por crianças carentes, trabalhadores sem-terra, populações marginalizadas, minorias e festas populares.

Poder paralelo na estatal

Na Petrobras, em 2003, multiplicou por três o orçamento e o pessoal de Comunicação: para R$700 milhões (publicidade e patrocínio). E praticamente dobrou o pessoal (230) subordinado, a maior parte na condição de prestador de serviço contratado por uma empresa, Protemp, de Santo André (SP). Ela já trabalhava para a Petrobras, mas essa relação só cresceu de forma expressiva a partir da chegada de Santarosa à estatal.

Ele se tornou um poder paralelo na empresa. Embora José Eduardo Dutra, o ex-presidente, e Sérgio Gabrielli, o atual, também pertençam ao núcleo sindicalista do PT, a diferença entre eles é que Santarosa é do grupo Cajamar de Lula, com Gushiken como padrinho e apoio pleno de José Dirceu, de quem é amigo.

Seu poder na estatal tem raiz no Planalto, a quem sempre se reportou de forma autônoma e direta. Sua posição hierárquica é logo abaixo da de diretoria executiva. Certa ocasião, um diretor ousou perguntar-lhe se o assunto tratado já havia passado pelo crivo do então presidente da estatal, José Eduardo Dutra. ¿Dutra? Quem é Dutra?¿, reagiu Santarosa.

Sua função ficou realçada para o público interno pela dimensão dos dois orçamentos que passou a controlar diretamente: publicidade e patrocínios. Na publicidade, optou-se pelas agências F/Nazca, Quê e Duda Mendonça, cujo contrato vem sendo prorrogado e deverá ser mantido até a conclusão do processo de concorrência, em março. Assim, as três agências ganham mais quatro meses de trabalho, pois o contrato termina, oficialmente, em 4 de dezembro.

Para a Petros, Gushiken indicou Wagner Pinheiro de Oliveira, que havia sido assessor de finanças e orçamento da bancada do PT na Assembléia Legislativa de São Paulo.

Gushiken: relação institucional

Procurado pelo GLOBO, Santarosa negou ter sido indicado por Gushiken:

¿ Fui convidado pelo presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, e reconduzido pelo atual, José Sérgio Gabrielli. Ele (Gushiken) é um amigo. Enquanto esteve no ministério, a relação foi institucional.

Santarosa disse que os contratos de patrocínio, com dispensa de licitação, são respaldados pelo Manual de Procedimentos Contratuais (MPC), que complementa o Regulamento do Procedimento Licitatório Simplificado, baixado pelo decreto número 2.745, de 24 de agosto de 1998.

Santarosa também negou relação com a Globalprev, gestora de fundos de pensão controlada por ex-sócios de Gushiken, e disse que as contas da Ceasa de Campinas, relativas a sua gestão, foram rejeitadas pelo TCE de São Paulo porque ¿havia um desequilíbrio contábil que já foi equacionado com o aumento da receita proveniente do reajuste nas tarifas¿.