Título: 'HABEMUS SECRETÁRIO DA FAZENDA', DIZ CABRAL
Autor: José Meirelles Passos
Fonte: O Globo, 29/11/2006, Rio, p. 16

Ex-secretário do Tesouro Nacional e atual vice-presidente do BID, Joaquim Levy diz que Rio vai crescer 5%

WASHINGTON. Entusiasmado com a conquista que acabara de fazer, o governador eleito do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, buscou uma forma adequada à intensidade de sua satisfação para anunciá-la no final da tarde de ontem, na capital americana. E fez isso utilizando a forma que o Vaticano costuma empregar quando anuncia a escolha de um novo papa:

- Habemus secretário da Fazenda! - afirmou ele ao GLOBO, logo depois que Joaquim Levy, o ex-secretário do Tesouro Nacional, lhe disse que decidira aceitar o convite para assumir o cargo.

Em seguida, usando linguagem futebolística, Cabral disse que estava contente por ter finalmente completado o seu time, com a contratação do economista, hoje vice-presidente para finanças e administração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Perguntado, então, qual seria o número da camisa de Levy em sua equipe, Cabral revelou o tamanho do desfalque que acabara de produzir naquele banco:

- O Moreno (Luiz Alberto Moreno, presidente do BID) me disse que estou levando o Ronaldinho. Portanto, ele vai ser o meu camisa 9.

'Há coisas importantes acontecendo lá no Rio'

Cabral ficou agradecido ao executivo "pela liberação do passe". Esse fator foi um dos aspectos mais importantes da negociação, segundo Levy:

- Considerei vários fatores para tomar uma decisão. E um deles foi, obviamente, a posição de Moreno. Eu aguardava uma conversa do governador (eleito) com Moreno. Ele está meio tristinho com a minha saída. Mas acho que a minha tarefa aqui, que era a de tocar reformas internas no banco, já está bem encaminhada. Volto, então, para aquela cidade maravilhosa. Há coisas importantes acontecendo lá no Rio de Janeiro e quero participar delas.

Cabral não economizou elogios à sua aquisição:

- O Rio acaba de conquistar o maior nome de gestão fiscal e de finanças que o Brasil tem hoje. Levy representa uma garantia de qualidade fiscal para o nosso estado, assim como o enfoque em gestão que havíamos prometido. Além, também, de uma garantia de austeridade fiscal. Ele terá autonomia de cem por cento.

Especialista em contas públicas, Levy, de 45 anos, comandou o processo de aperto nos gastos públicos durante os seus três anos como secretário do Tesouro Nacional. Ele assumiu o cargo em 2003 e foi um dos principais articuladores da política econômica, quando Antônio Palocci era ministro da Fazenda. Levy chegou a provocar a ira da governadora Rosinha Garotinho ao bloquear o repasse de verbas federais para o metrô do Rio, por causa do atraso no pagamento de parcelas da dívida estadual - medida que é prevista na Lei de Responsabilidade Fiscal. Ele deixou o cargo em abril deste ano, quando foi para o BID.

Levy disse que tem plena confiança no programa de governo de Cabral. E fez questão de afirmar que não está dando um tiro no escuro ao trocar a vice-presidência do BID em Washington pela responsabilidade de cuidar das finanças do Estado do Rio:

-- Acredito muito nessa aposta que estou fazendo. Na hora de escolher, eu costumo votar com os pés... com os pés no chão. E por isso posso afirmar que vamos ter um crescimento saudável de cinco por cento na economia do Rio.

A última etapa da negociação para que ele aceitasse a oferta de Cabral foi intensa. Os dois conversaram durante uma hora, na noite de segunda-feira. Ontem voltavam a falar a respeito, durante almoço na residência do embaixador do Brasil em Washington, Roberto Abdenur.

O convite foi aceito no final da tarde, depois de uma reunião com Moreno, na sede do banco. Um aspecto pessoal também estava em jogo: as duas filhas de Levy - de 8 e 11 anos - estão matriculadas em escolas na cidade e voltar ao Rio no início de 2007 significaria perder o ano escolar nos Estados Unidos (que começou em setembro).

A perspectiva mais provável, segundo Levy, seria ele mudar-se para o Rio em janeiro, enquanto as meninas e a sua esposa, Denise, permaneceriam em Washington até o fim do ciclo escolar:

-- Tudo deu certo porque minha mulher me deu um apoio sensacional - disse ele.

Embora tenha ganhado prestígio como economista - com mestrado na Fundação Getúlio Vargas e doutorado na área pela Universidade de Chicago - Levy formara-se, antes, em engenharia naval. De 1992 a 1999, ele trabalhou no Fundo Monetário Internacional (FMI), em três departamentos: primeiro no do Hemisfério Ocidental, depois no da Europa e, mais tarde, no de Pesquisas. Antes de voltar ao Brasil, no ano 2000, exerceu atividades nas divisões de mercado de capitais e de estratégia monetária no Banco Central Europeu.