Título: Endividadas, as famílias reduzem o consumo
Autor: Aguinaldo Novo
Fonte: O Globo, 02/12/2006, Economia, p. 43
Comportamento no PIB registra desaceleração, o que acende a luz amarela na economia, dizem analistas
SÃO PAULO. Com peso de cerca de 55% no cálculo do PIB (a soma das riquezas produzidas pelo país), o consumo das famílias exibiu no terceiro trimestre força menor do que a esperada e fez acender a luz amarela na indústria. Pelos dados divulgados pelo IBGE, a variação entre julho e setembro foi de 0,5%, depois de subir 1% no trimestre anterior. O enfraquecimento é creditado ao elevado endividamento do consumidor e à lenta recuperação da renda.
¿ O consumo das famílias, que era a principal aposta de crescimento, está perdendo fôlego, mesmo considerando os programas sociais do governo e o reajuste salarial de importantes categorias nesta segunda metade do ano ¿ afirmou o diretor-adjunto do Departamento de Economia do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo, Antônio Corrêa de Lacerda.
A entidade, que reviu de 3,5% para 3% a previsão para o PIB deste ano, diz que há espaço para que a economia avance até 4% em 2007. Para isso, no entanto, Lacerda cobra mudanças na política econômica de forma a compensar a menor velocidade na ponta do consumo das famílias. A receita sugerida passa pela valorização do câmbio, aceleração no corte dos juros e maior desoneração na compra de máquinas e equipamentos.
¿ É preciso mudar, porque a economia já vai entrar em 2007 devagar ¿ disse ele.
A explicação de que o elevado endividamento está por trás do desempenho apresentado pelo PIB até o terceiro trimestre é endossada por pesquisa recente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio). Depois de entrevistar 1.360 consumidores da Região Metropolitana de São Paulo, a entidade apurou que 70% deles tinham em novembro algum tipo de dívida (no cheque especial, cartão de crédito, empréstimo pessoal ou prestações no varejo). É o maior índice de endividamento desde junho de 2004 (72%, até agora recorde na série da pesquisa, iniciada em janeiro do mesmo ano).
A pedido do GLOBO, a Fecomércio abriu os dados da sondagem. O que se vê é que o aperto é maior entre os que ganham entre três e dez salários mínimos (de R$1.050 a R$3.500). Nesta faixa, o endividamento chega a 77% da amostra. Entre os que recebem mais de dez salários mensais, o peso da dívidas é de 56%. Mais preocupante, porém, é o comprometimento da renda com pagamento das dívidas. Na média, chega a 33% (vai a 38% na faixa até três salários mínimos).
¿ É desanimador pensar em expansão mais forte do PIB com um quadro desses ¿ disse a diretora da assessoria econômica da Fecomércio-SP, Fernanda Della Rosa.
Em outra sondagem nacional, a Serasa apurou aumento da inadimplência em outubro (a pesquisa referente a novembro ainda não foi divulgada). A alta foi de 5%, quando comparada a setembro, e veio depois de duas quedas consecutivas do indicador. No acumulado de janeiro a outubro, o crescimento chega a 12,3%. As dívidas com cartões de crédito e financeiras tiveram o maior peso na inadimplência dos consumidores: 34,1%, ante 33% no caso dos débitos com bancos e 30%, com cheques sem fundos.