Título: Tensão pré-reforma atiça o fogo amigo no governo
Autor:
Fonte: O Globo, 03/12/2006, O País, p. 11
Silêncio do presidente e entrada formal do PMDB na coalizão montada por Lula inquieta petistas e aliados
BRASÍLIA. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não abre o jogo da reforma ministerial e a tensão toma conta de petistas e aliados. Sem conseguir ver a luz no final do túnel, os governistas batem cabeça e trocam o já velho e conhecido fogo amigo. No primeiro mandato era a política econômica comandada pelo ex-ministro Antonio Palocci que alimentava a maior parte das disputas internas no governo. A economia ainda é o principal alvo de críticas dos aliados, mas o segundo mandato de Lula ganha um ingrediente novo: a entrada do PMDB no governo é mais um fator de tensão e inquieta os aliados, não apenas o PT, gerando ciúmes e disputas.
Enquanto o PMDB tem tido interlocução preferencial com Lula, a direção do PT trabalha internamente para voltar ao comando do Ministério das Cidades ¿ uma das pastas cobiçadas pelo próprio PMDB. Mas o principal nome do partido a ocupar um lugar na Esplanada, a ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy, sonha com a Educação, onde está o petista Fernando Haddad. São aspirações e dúvidas como essa que alimentam o fogo amigo no governo.
¿ A Marta fez uma revolução na área da Educação. Esta é uma pasta que tem recursos, já está conosco e é prioridade do segundo mandato ¿ resume o deputado José Mentor (PT-SP).
Disputa pela Câmara concentra troca de chumbo
Na quinta-feira, mesmo dia em que o PMDB aprovou sua participação no governo de coalizão, enquanto o Planalto comemorava, o ex-ministro da Integração e deputado eleito Ciro Gomes (PSB-CE), em entrevista no Ceará, criticava a política econômica e provocava peemedebistas ao referir-se ao partido como um ¿elefante branco¿, que não vai junto a lugar algum. Por trás disso, o temor de petistas e aliados com o tamanho do PMDB no governo.
¿ Para surpresa dos petistas, o PMDB está unido e a maioria decidiu apoiar o governo. Isso assusta os aliados ¿ diz o deputado Geddel Vieira Lima (PMDB-BA).
Mas nada ilustra mais a troca de chumbo entre os aliados do que a disputa pela presidência da Câmara. O atual presidente, deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (PT-SP), estão em campanha aberta. O PMDB, que elegeu a maior bancada, vai entrar na disputa esta semana. O petista Chinaglia quer retardar ao máximo sua conversa com o presidente Lula, na expectativa de que sua candidatura se cristalize na bancada e entre os aliados.
Aldo, que teria a preferência do presidente Lula, chegou a sugerir que ambos fossem ao Planalto tratar do assunto, mas Chinaglia não quis.
¿ Você quer que eu vá lá para o Lula dizer que você é o candidato? Não vou de jeito nenhum ¿ respondeu Chinaglia.
Nem mesmo a tentativa dos partidos governistas de realizar uma prévia para escolher um candidato único para a vaga de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) consegue unir os aliados. O secretário-geral do PTB, Luiz Antonio Fleury (SP), decidiu que não irá se submeter ao processo, por avaliar que se trata de um estratagema do PT e do PMDB para alijar os candidatos dos partidos menores.
¿ Essa prévia é estranha. O candidato do PMDB tem uma bancada de 89 deputados e o do PT de 83. Minha bancada tem 45 deputados ¿ critica.