Título: Chavistas festejam sem resultado
Autor: Renato Galeno
Fonte: O Globo, 04/12/2006, O Mundo, p. 19
Presidente discursa como reeleito e oposição denuncia irregularidades em 20 seções
Depois de uma campanha em que prometeu radicalizar a revolução bolivariana e levar o país ao que chamou de socialismo do século XXI, o presidente Hugo Chávez discursou ontem como presidente reeleito para mais seis anos de governo na Venezuela, antes mesmo do resultado oficial. Já a oposição denunciou irregularidades em pelo menos 20 seções de votação, apesar de os observadores internacionais afirmarem que as eleições ocorreram sem grandes problemas nas 33 mil mesas de votação. Caso seja confirmada a vitória de Chávez, como todas as pesquisas indicavam, o presidente tem projetos de ficar à frente do governo até 2021.
Já na chegada à sua seção eleitoral, Hugo Chávez esbanjava confiança. Sorridente, não apenas a camisa que trajava era ¿vermelha, vermelhinha¿, slogan de sua campanha, como também o velho fusca no qual chegou dirigindo até o bairro 23 de Janeiro, uma região pobre de Caracas.
O presidente em busca da reeleição demorou cerca de 15 minutos para percorrer os dez metros que separavam o local onde estacionou o carro e a entrada de sua seção eleitoral, pois parou para conversar com admiradores. O último deles era uma brasileira, o que fez com que Chávez gritasse, enquanto entrava na seção:
¿ Viva Brasil! Viva Lula!
Cerca de uma hora antes, o candidato da oposição, Manuel Rosales, denunciou que havia problemas nas urnas em que possivelmente haveria um maior número de votos para ele.
¿ Há problemas onde os votos tradicionalmente são antichavistas. Não quero pensar que se deva a uma manipulação ou a uma estratégia montada ¿ disse ele.
As avaliações iniciais de observadores internacionais, no entanto, afirmaram que a votação estava acontecendo de forma transparente, apenas com problemas pontuais. No início da noite de ontem, o comando de campanha oposicionista denunciou que soldados do Exército venezuelano estavam impedindo o fechamento de algumas seções eleitorais para que chegassem mais eleitores chavistas. Por volta das 21h (horário de Brasília), o CNE já tinha mais de 25% das urnas contabilizadas, mas não podia divulgar os resultados porque algumas mesas ainda não haviam fechado.
Chávez respondeu às acusações com ironia:
¿ Pode ser que alguém esteja se sentindo derrotado.
Partido único faz parte dos planos
Perguntado por um repórter japonês se em seu provável novo mandato ele manteria relações harmoniosas com a Coréia do Norte, Chávez disse que buscaria contato com todos os países, mesmo os Estados Unidos.
¿ Temos relações com todos os países desde que nos respeitem, inclusive com os Estados Unidos ¿ disse Chávez, que mencionou uma declaração do subsecretário de Estado americano para as Américas, Thomas Shannon, que disse que seu país buscaria dialogar com o presidente venezuelano, quem quer que fosse. ¿ Que bom que um representante dos EUA pelo menos reconheça que na Venezuela estamos numa democracia. É um bom sinal.
As declarações moderadas do presidente venezuelano dirigidas aos EUA se chocam com o tom beligerante da campanha. Um dos cartazes mais comuns nas ruas de Caracas incitava os eleitores a votar contra ¿o diabo¿, numa referência ao presidente americano, George W. Bush.
Chávez também frisou que a retirada do país da Comunidade Andina de Nações (composta hoje por Colômbia, Peru e Bolívia) é definitiva, assim como o abandono do G3 (com México e Colômbia). O motivo foram os atritos recentes com os novos presidentes de Peru, Alan García; e México, Felipe Calderón, que tiveram suas eleições consideradas ¿duvidosas¿ pelo venezuelano.
O país também pretende ter relações mais próximas com o Irã, que está travando uma queda de braço com Europa e EUA devido a seu programa nuclear. Chávez inaugurou uma fábrica iraniana-venezuelana de automóveis, e anunciou a construção de uma fábrica de fuzis russos.
Mas é no plano doméstico que Chávez prometeu o ¿aprofundamento e a radicalização da revolução bolivariana¿, como chama seu governo. Os ¿primeiros oito anos¿ de seu governo teriam sido apenas uma transição para o ¿socialismo do século XXI¿. O presidente não esclareceu como seria tal sistema de governo, mas disse que não seguiria o modelo cubano.
Entre as medidas polêmicas está uma reforma constitucional para permitir a reeleição por um número indeterminado de vezes. Chávez já disse que ficaria no poder até 2021, chegando a mencionar 2030.
Se confirmada a reeleição, o presidente venezuelano quer fazer uma reforma educacional no país, para ideologizar o ensino de crianças. Também anunciou a criação de um partido único, frisando que se referia às forças que apóiam o governo, não às legendas oposicionistas.
No campo econômico, prometeu acabar com o capitalismo na Venezuela, chegando a falar que poderia implementar um sistema de escambo em comunidades carentes. Mais dinheiro da estatal de petróleo, a PDVSA, já estaria reservado para investimentos sociais.
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