Título: Separadas, elas preferem namorrar a casar ou viver com um homem de novo
Autor: Menezes, Maiá
Fonte: O Globo, 06/12/2006, O País, p. 16
Mulheres lutam para salvar casamento, mas têm iniciativa no divórcio
SALVADOR e FORTALEZA. A professora Clélia Gonçalves diz que, de positivo dos 19 anos de casamento, restaram os quatro filhos. E afirma que juntar escovas de dentes, nunca mais. Para Clélia, de 58 anos, bom é namorar, mas cada um na sua casa:
¿ Domingo passado eu estava revendo uma foto de quando era casada. Remocei desde a separação.
Ela diz que a felicidade durou até o nascimento do segundo filho. Depois os desgastes só aumentaram, até chegar a um ponto em que ela, educada para preservar o casamento a qualquer custo, pediu o divórcio:
¿ Cresci e evoluí, enquanto ele se preocupava em me diminuir aos meus olhos e aos dos outros.
O afeto definhou, levando a reboque o interesse sexual e os demais ingredientes do casamento. Clélia passou a fazer análise e percebeu que a relação chegara ao fim, mas ele se recusava a sair de casa.
¿ Fiz as malas dele, pedi que saísse, mas ele não foi. Precisei recorrer à Justiça para obter o divórcio, e fiquei dois anos arcando com as despesas. Ele não contribuía com nada.
Sem dinheiro para pagar advogado, Clélia só entrou na Justiça para reivindicar a pensão alimentícia quando um amigo a ajudou.
¿ Quando soube, meu ex-marido não fez por menos, reivindicou pensão, porque no período meu salário era maior. Hoje me pergunto: como pude gostar tanto desse homem?
Número de divórcios litigiosos aumentou
Em Fortaleza, Débora Celestino encerrou ontem o casamento no Fórum Clóvis Bevilaqua e também não quer ouvir falar em se casar de novo. Oito anos atrás, ela precisou da autorização dos pais para se casar, pois tinha apenas 14 anos. A iniciativa de pedir o divórcio em 2004 foi dela, mas o marido concordou. Foi uma das 1.436 ações de divórcio consensual que chegaram ao fórum naquele ano. Em 2005, foram 1.704. Os casos de divórcio litigioso aumentaram mais: de 1.101 em 2004 para 1.613 no ano passado. Em novembro desse ano, foram 151 pedidos de divórcio litigioso.
Para Débora, o divórcio pôs fim a uma convivência com o primeiro namorado marcada pela infidelidade e pela inexperiência. O casal estava separado de fato desde 2002. O ex-marido já tem outra companheira.
¿ Não pretendo me casar novamente, nem viver junto com alguém. Só namorar.
Com exceção do primeiro ano, ela resumiu o casamento com o homem 11 anos mais velho em duas palavras: infidelidade e brutalidade.
¿ Perdi muito me casando cedo. Perdi liberdade e interesse pelos estudos ¿ afirmou ela, que agora quer fazer vestibular.
O caso de Débora chegou ao fim. Mas há histórias com final diferente, conta o coordenador das varas de família, Sergio Parente. Segundo ele, muitas ações, especialmente as de jovens casais, são impensadas. Ele já viu marido fazer declarações de amor e se negar a assinar o divórcio. Em outro caso, marido e mulher, separados havia um mês, concordaram em dar um tempo para decidir se seguiriam com a separação depois de o juiz pedir que refletissem melhor.
¿ Sempre digo: as portas estão abertas. Se quiserem voltar, não se encabulem ¿ conta.