Título: Oposição derrota a base da coalizão de Lula
Autor: Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 07/12/2006, O País, p. 12

Deputado pefelista do baixo clero vence o petista Paulo Delgado e é escolhido pela Câmara para ministro do TCU

BRASÍLIA. De nada adiantou a aliança tardia dos partidos da coalizão do governo Lula em torno do deputado petista Paulo Delgado (MG) para a vaga de ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). O deputado pefelista Aroldo Cedraz (BA), do baixo clero, venceu a disputa ontem por 172 votos a 148, com a oposição impondo a primeira derrota à base do presidente Lula e, principalmente, ao PT, que tem pretensões de presidir a Casa ano que vem.

Políticos experientes diziam ontem que a derrota do petista foi um prenúncio do que poderá ocorrer na disputa pela presidência da Câmara, em fevereiro. O PT lançou anteontem o nome de Arlindo Chinaglia (PT-SP), posicionando-se contra a reeleição de Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

¿ O governo, como diz o velho (pensador) Seneca, precisa aprender que não há vento favorável para quem não sabe para onde vai. Se não tomar cuidado nem juízo, essa será uma avant-première da disputa pela presidência da Câmara ¿ disse o líder da minoria, José Carlos Aleluia (BA).

¿Se PT e PMDB não se unirem, vão perder sempre¿

O deputado Moreira Franco (PMDB-RJ) também disse que a derrota serviu de alerta ao governo.

¿ O governo, os presidentes do PT e do PMDB e suas lideranças na Câmara têm que aprender a lição da vitória do Aroldo Cedraz. Se os dois partidos não se unirem, vão perder sempre ¿ disse Moreira.

¿ PT e PMDB tentaram dar uma demonstração de força e foram derrotados não só pela oposição, mas por parte da base aliada, que se sentiu excluída da negociação ¿ completou o líder do PFL, Rodrigo Maia (RJ).

Embora alardeada pela oposição como uma derrota do governo, a disputa não teve interferência direta do presidente Lula. O vice-líder do PT, deputado Fernando Ferro (PE), negou que a eleição de ontem tenha relação com a da presidência da Câmara. Ferro, no entanto, fez um mea-culpa depois da eleição, ao afirmar que o partido poderia ter sido mais agressivo na defesa da candidatura do petista:

¿ O governo não sai derrotado. A eleição do TCU está mais ligada a relações pessoais (dos deputados), embora nós do PT não tenhamos sido mais agressivos na defesa da candidatura do Paulo. Faltou também compromisso dos partidos da base.

Deputado é ligado a ACM, que perdeu para petista na Bahia

O deputado baiano é ligado ao senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e foi secretário de Indústria, Comércio e Turismo do governo de Cesar Borges, de 2000 a 2002. Empresário e veterinário, Cedraz também foi um dos responsáveis pela instalação da fábrica da Ford no estado. ACM saboreou a vitória de seu candidato como uma pequena revanche da derrota que sofreu em seu estado como a eleição do petista Jaques Wagner para o governo da Bahia.

¿ Outras vitórias como esta virão. Isso mostra que a maioria do governo que acaba de ser reeleito é precária. E que a Câmara e o Senado são independentes ¿ disse ACM.

Cedraz prometeu ser imparcial em seu novo cargo:

¿ Não existe ministro da oposição ou do governo no TCU. Examinarei com bom senso as políticas do governo.

Até a manhã de ontem, oito candidatos disputavam a vaga. A votação foi adiada por duas semanas a pedido dos líderes da base, que temiam que a divisão interna permitisse uma vitória da oposição. O acordo de um candidato único da base só foi conseguido três horas antes da eleição. Numa votação prévia, em que apenas 215 dos 337 deputados da base votaram, Delgado venceu por margem apertada os dois concorrentes mais fortes da base: Osmar Serraglio (PMDB-PR) e Luiz Fleury Filho (PTB-SP).

Segundo os líderes, o que pesou para a desistência dos outros concorrentes foi o apelo emocionado de Delgado, que chegou a chorar. Além de Cedraz e Delgado, disputaram a vaga os deputados Gonzaga Motta (PSDB-CE), que obteve 50 votos, e Ademir Camilo (PDT-MG), que terminou com 20 votos. Seis deputados votaram em branco e três anularam o voto.

COLABORARAM Maria Lima e Ilimar Franco