Título: MST, CUT e UNE ameaçam pressionar governo
Autor: Barbosa, Adauri Antunes
Fonte: O Globo, 10/12/2006, O País, p. 15

Entidades do movimento social preparam pauta comum de reivindicações e dizem que haverá mobilizações e greves

SÃO PAULO. A relação dos movimentos sociais com o governo no segundo mandato do presidente Lula não será a mesma. Entidades de trabalhadores, agricultores, estudantes e sem-terra estão convencidas de que nada mudará se não for com pressão sobre o governo. O PT já começou a dialogar com os movimentos sociais, dos quais tinha se afastado nos últimos tempos.

Após várias reuniões, mês passado, 25 diferentes entidades sociais, como Movimento dos Sem Terra (MST), Central Única dos Trabalhadores (CUT), União Nacional dos Estudantes (UNE) e Comissão Pastoral da Terra (CPT), entre outras, elaboraram uma pauta comum de reivindicações. A principal é a mudança da política econômica.

- Mudar a política econômica não é apenas baixar a taxa de juros. É usar os instrumentos da política econômica para promover o desenvolvimento com distribuição de renda. Isso significa que os recursos hoje reservados para o superávit primário, em vez de irem para os bancos, devem ir para investimentos públicos, nas áreas de educação, reforma agrária, saúde e moradia popular - defende o coordenador nacional do MST, João Pedro Stédile.

As reivindicações comuns passam também pelo aumento do salário mínimo e dos salários em geral. Na última quinta-feira, a CUT fez a primeira grande mobilização do período. A 3ª Marcha Nacional do Salário Mínimo foi convocada pelas sete centrais sindicais do país para reivindicar o aumento do mínimo para R$420. O presidente da CUT, Artur Henrique da Silva Santos, disse que o governo será pressionado por mobilizações e greves.

- A CUT não é governo. O papel da CUT é defender sua pauta, pressionar o governo, o Congresso, disputando os orçamentos públicos, sejam eles da esfera federal, estadual ou municipal - disse o presidente da central, que apoiou a reeleição do presidente Lula.

Aberto para o diálogo com os movimentos sociais, o deputado estadual Renato Simões (SP), secretário nacional de Movimentos Populares do PT, dá total apoio às pressões:

- A pressão é muito importante, tem nosso total apoio. Vai ajudar muito a mostrar a força popular, para dar suporte aos projetos de interesse da sociedade e do governo também. Nem sempre os interesses vão coincidir. Mas os canais estarão sempre abertos para o diálogo, e a relação será democrática, para que o resultado seja o mais avançado possível - diz o dirigente do PT.

De janeiro a março, a Secretaria Nacional de Movimentos Populares do PT vai promover encontros setoriais em vários estados. Com a informação acumulada, os militantes vão participar, de 23 a 25 de março, de uma plenária nacional que vai produzir uma tese, a ser apresentada no congresso do PT, em julho de 2007, sobre a relação do partido com movimentos sociais.

- Há o sentimento geral de que é preciso fazer o que a campanha do segundo turno fez: dar outra dimensão aos movimentos sociais - avalia Renato Simões.

- Agora, o governo tem uma oportunidade singular de conseguir mais força para cumprir o que foi prometido - endossa o presidente da UNE, Gustavo Petta.