Título: Primeiro mundo só na aparência
Autor: Barboa, Flávia e Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 10/12/2006, Economia, p. 33

Reformas de aeroportos são alvo de críticas e investigações

SÃO PAULO e RIO. A Câmara Municipal de São Paulo vai instalar Comissão Especial de Estudos para avaliar a situação do aeroporto de Congonhas, o mais movimentado do país. Em 2001, comissão semelhante propôs uma série de medidas de segurança. Segundo vereadores e sindicalistas, a maior parte foi ignorada pelas autoridades federais. Em vez disso, a Infraero optou por uma reforma de R$186 milhões que, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), estaria superfaturada em R$100 milhões.

Entre as medidas propostas cinco anos atrás, estão a redução do número de vôos em Congonhas, construção de uma pista auxiliar de pouso, drenagem e aumento de aderência da pista já existente e a revisão da carga horária dos controladores de vôo.

- O número de vôos chegou a ser reduzido, mas agora tudo voltou à estaca zero - disse a presidente da Associação Brasileira de Parentes e Amigos de Vítimas de Acidentes Aéreos, Sandra Assali.

Em 2003, a Infraero deu início à reforma: a área para passageiros cresceu 15 mil metros quadrados e quatro fingers (pontes de embarque), oito escadas rolantes e uma garagem com duas mil vagas foram construídas. O TCU achou indícios de superfaturamento de até 250% em itens como as pontes, cujo preço de mercado é de R$630 mil mas que custaram R$2,2 milhões cada.

- O que foi feito até agora beneficia apenas os usuários do aeroporto em detrimento do restante da população - disse o vereador Dr. Farhat (PTB), que presidiu a comissão na Câmara.

Para o presidente da Federação dos Nacional dos Trabalhadores em Transportes Aéreos, Uébio José da Silva, o governo priorizou a cosmética:

- Para o governo, a aviação é só glamour, mas um aeroporto não vive de glamour. Em vez de um salão de embarque com piso de granito, poderiam ter colocado micro-esferas de aço que aumentassem a aderência, ou melhorar a drenagem da pista.

Sandra Assali foi mais incisiva:

- Se o governo quer uma aviação de Primeiro mundo, deveria dar aos aeroportos uma estrutura de Primeiro mundo. Os aeroportos estão lindos, mas cadê a eficiência atrás da porta? Houve omissão.

A Infraero não revelou os investimentos em segurança nos aeroportos de São Paulo, nem quis comentar as denúncias. Segundo a empresa, as obras foram liberadas em agosto porque dependiam do término da segunda pista em Guarulhos, que receberá os vôos desviados.

Com investimento de R$300 milhões, as obras no aeroporto Santos Dumont serão concluídas em junho de 2007, antes dos Jogos Pan-Americanos. Do valor, pouco será destinado às pistas, segundo a Infraero. Será criada apenas uma faixa auxiliar e haverá ampliação do pátio de estacionamento das aeronaves. Em janeiro, três das oito pontes de embarque já estarão funcionando. O Santos Dumont opera no limite. A capacidade é de 1,5 milhão de passageiros por ano, mas hoje recebe 3,5 milhões. Com as obras, terá condição de receber 8 milhões.