Título: Nem verba bilionária evita caos
Autor: Barboa, Flávia e Batista, Henrique Gomes
Fonte: O Globo, 10/12/2006, Economia, p. 33

Apesar dos R$4 bi para a aviação, houve problemas de gestão, diz líder do governo

O governo federal foi incapaz de impedir o apagão aéreo e o caos nos aeroportos dos últimos 60 dias, mesmo tendo investido R$4 bilhões, entre 2003 e 2006, em infra-estrutura aeroportuária e na proteção do tráfego aéreo. Os números da Infraero (estatal que administra 67 aeroportos no país), reunidos pelo GLOBO, e do Orçamento, compilados pelo site Contas Abertas, demonstram que os órgãos envolvidos com a administração de tudo que se refere aos céus do Brasil estão paralisados pela incapacidade de gestão e planejamento. Esse diagnóstico já está cristalizado no Planalto, no Congresso e entre militares do Comando da Aeronáutica.

- Está até sobrando dinheiro no Orçamento deste ano, e, para o ano que vem, já há até dotação maior. O problema agora não é de dinheiro, e sim de gestão - afirmou o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), na sexta-feira, após reunião no Planalto para acompanhar os trabalhos do governo.

Apesar de ter tirado do papel obras importantes - como o terminal de cargas de Manaus, a construção da segunda pista do Aeroporto de Brasília e as reformas de Santos Dumont e Congonhas - e ter gastado com novos equipamentos R$279,4 milhões em quatro anos, o governo falhou ao não se preocupar com a operação do novo aparato. Além disso, conforme avaliação de vários interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não houve iniciativa para abrir a caixa-preta do Comando da Aeronáutica.

Disputa sobre civis atrasou concurso

Uma prova da falta de coordenação que existe no Executivo em relação à área, sobretudo quando os militares estão envolvidos, é a questão da contratação de controladores de vôo. O Ministério da Defesa recebeu, em novembro de 2005, autorização do Ministério do Planejamento para contratar, por meio de concurso, 114 controladores civis. Em janeiro deste ano, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea) lançou edital.

No entanto, ofereceu apenas 50 vagas - e as provas de junho acabaram canceladas. Somente depois que a crise estourou é que o edital foi relançado, mesmo assim prevendo apenas 64 profissionais e com atraso de três semanas em relação à data inicial em que foi anunciado.

Foi a disputa em torno da ampliação da participação de não-militares no controle de tráfego que acabou levando a Aeronáutica a não fazer o concurso. A falta de profissionais - aliada à perda de técnicos para a iniciativa privada e ao treinamento precário da equipe remanescente - é o motivo central para as recentes operações-padrão dos controladores e para a pane no equipamento do Cindacta 1, em Brasília, na terça-feira.

- Compram o equipamento de comunicação italiano. Mas quem disse que o técnico do Cindacta 1 vai até a Itália aprender a operá-lo? Existe uma falha de treinamento. E, com a ausência de um plano de cargos e salários, a Aeronáutica está perdendo excelentes quadros, engenheiros, para a iniciativa privada - disse um controlador que trabalha no Cindacta 1.

Carência chegará a 560 profissionais

Alguns controladores também lembraram que a primeira etapa da descentralização do controle - com a criação de subcentros no Rio e em São Paulo, anunciada para daqui a seis a oito meses - vai aumentar a demanda por controladores. A carência de profissionais, estimada em 500 controladores, seria ampliada em, no mínimo, 60 trabalhadores.

A falta de recursos não é argumento para o treinamento inadequado e o quadro defasado. O governo ampliou nos últimos quatro anos, por exemplo, o quadro da Polícia Federal, diante da constatação de que o combate a crimes precisava ser reforçado.

Como mostram os dados para obras, equipamentos e prevenção de acidentes, a liberação de verbas para o setor foi crescente desde 2003. O orçamento de investimentos da Infraero foi de R$460,9 milhões em 2003 e de R$474,5 milhões em 2004. Pulou para R$694,7 milhões em 2005 e chegou a R$881,9 milhões neste ano. No total, foram R$2,5 bilhões.

Na área de proteção de vôo, os recursos também foram significativos: R$1,579 bilhão no governo Lula. Este ano, dos R$531,7 milhões autorizados, foram pagos R$324,5 milhões. Destes, 12,2% foram desembolsados após a eclosão da operação-padrão.