Título: O sequestro de Bolívar
Autor: Magnoli, Demétrio
Fonte: O Globo, 14/12/2006, Opinião, p. 7

Simon Bolívar, o Libertador (1783-1830), morreu na Colômbia e seus restos mortais foram transferidos para Caracas, 12 anos depois. Embora reverenciado em toda a América hispânica, a sua figura ocupa um lugar especial na Venezuela. É esse lugar que explica a apropriação de seu legado por Hugo Chávez.

Homem de seu tempo, ávido leitor de Montesquieu e Adam Smith, Bolívar inspirava-se na Revolução Americana e defendia a razão, a liberdade, a ordem e o livre mercado. Visionário, lutou até o fim pela unidade da América hispânica, tomando como modelo a grande república da América do Norte.

A ¿revolução bolivariana¿ de Chávez, antiliberal e antiamericana, seqüestra a herança do Libertador e oculta as suas próprias fontes ideológicas. O chavismo bebe em águas contemporâneas que escorrem do pensamento do historiador venezuelano Federico Brito Figueroa (1921-2000), autor de uma narrativa étnica do passado do país, e do cientista político argentino Norberto Ceresole (1943-2003), personagem controvertido que ingressou na política pelo peronismo de esquerda e, em 1987, ajudou a articular a rebelião militar dos ¿carapintadas¿ contra os processos de violações de direitos humanos na Argentina.

Ceresole se tornou conselheiro do grupo militar de Chávez pouco depois do frustrado golpe de 1992 e freqüentou o círculo presidencial até o final de 1999. Ele desfrutou da amizade e compartilhou as idéias de Robert Faurisson, o pai intelectual da negação do Holocausto, e de Roger Garaudy, o intelectual francês que tentou conciliar comunismo e catolicismo até se converter ao Islã e se entregar à difusão do anti-semitismo. A visita de Chávez a Teerã, a proclamação de uma aliança com o Irã de Mahmoud Ahmadinejad e a inauguração de um escritório da Jihad Islâmica em Caracas são tributos do presidente venezuelano à duradoura influência do amigo argentino. Os jovens de esquerda que aplaudem Chávez no Fórum Social Mundial não sabem o que fazem.

Recobrir o chavismo com a capa elástica do conceito de populismo é prestar homenagem à letargia intelectual. Na história da América Latina, o populismo é uma adaptação do sistema político à modernização industrial, uma transição crítica na qual o líder populista conserva a ordem social em meio ao turbilhão da mudança. Esse líder, que discursa para o povo de dia e confabula com os poderosos à noite, prende os movimentos sociais nas malhas do Estado mas promove reformas verdadeiras e estimula um desenvolvimento industrial autônomo.

O ¿momento populista¿, que produziu Vargas e Perón, esgotou-se com a globalização. Só o estilo populista está presente no chavismo, pois a Venezuela ¿bolivariana¿, na contramão da retórica oficial, conhece um evidente processo de desindustrialização e petrifica as características petroleiras e rentistas da sua economia. Sob o influxo da alta estrutural dos preços do petróleo, o regime optou pelo caminho mais fácil, apostando na apropriação estatal das rendas oferecidas por uma ¿economia de porto¿ que experimenta os prazeres de uma explosão de importações combinados com os de uma bolha inflacionária. Os muito ricos votaram em Chávez, assim como a massa dos pobres, assistidos pelos programas de redistribuição clientelística de rendas do petróleo.

Chávez é fruto do colapso da ordem na Venezuela, que decorreu da falência histórica de uma elite dirigente rentista. O chavismo é um movimento heterogêneo, que abrange semifascistas, reformistas moderados, castristas e até uma esquerda trotsquista. Suas prioridades imediatas são a formação de um partido unificado e a aprovação da reeleição ilimitada, algo que romperia o quadro precariamente democrático no qual ainda se move o país.

De frente para o Caribe, mas situada na América do Sul, a Venezuela interpreta a si mesma como a plataforma geopolítica de construção da unidade da América Latina. A Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), que tomaria forma a partir de um eixo energético comandado pela Venezuela (¿Petro-América¿), é um projeto de múltiplas faces: comércio administrado, integração militar e programas sociais comuns. A Venezuela entrou no Mercosul para implodi-lo e erguer, sobre os seus escombros, a ¿Pátria Grande¿ chavista.

¿O Mercosul, ou o reformamos e fazemos um novo Mercosul ou também se acabará. Não é um instrumento adequado para a era em que estamos vivendo. Vamos enterrar nossos mortos, irmãos.¿ Pronunciadas diante de um Lula patético, as palavras de Chávez evidenciam o sentido da política externa venezuelana e a natureza da armadilha na qual se enredou, voluntariamente, o Brasil.

DEMÉTRIO MAGNOLI é sociólogo e doutor em geografia humana pela USP. E-mail: magnoli@ajato.com.br.